09 junho 2009

Alma sebosa?

Limpar a casa, às vezes, é tarefa penosa; pelo tal de lava, esfrega, varre, espana, enfim. Ao final do processo, porém, o cheirinho de limpeza deixado no ar entoa uma espécie de mantra que parece repetir: missão cumprida, missão cumprida... Como se a vida não tivesse missões mais árduas, como se nós não tivéssemos que tratar com coisa tão mais suja e mal cheirosa.

Porque o pior é quando precisamos faxinar além. Lá onde os espanadores e as vassouras de vasculhar não alcançam. Talvez eu precise de uma faxina na alma – como já disse, um dia, aquele poema atribuído ao Drummond, erroneamente: “acreditou que tudo estava perdido? era o início de sua melhora”.

Engraçado como passamos parte da vida imaginando que só podemos melhorar uma coisa que já está preta. Isso deixa a tal faxina sugerida apenas para quando a alma (a nossa alma) está tomada de impurezas e substâncias cancerígenas. E o excesso de poeira que deixamos para limpar depois – semana que vem... – acaba se tornando a nossa tosse persistente amanhã, a alergia que aparece de tempo em tempo.

Eu não posso saber quando cada pessoa retira a poeira dos seus dias: todas as semanas, mensalmente, por semestre ou se a maioria deixa sujeira acumulada nos atos e pensamentos até que ela comece a incomodar de verdade. Quase todo mundo já chutou o lixo para debaixo do tapete e até conseguiu contornar a situação por um período qualquer, que certamente passou. Mas eu sei que emoções perdidas, sonhos frustrados e palavras enclausuradas não se escondem muito tempo depois que começam feder. Por isso recomendo, periodicamente, faxina na alma com uma boa dose de reflexão higiênica.

(Original publicado em 14.04.009)

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