09 junho 2009

As janelas do medo

Não, eu realmente não acho que a característica que agrega os humanos como seres da mesma espécie é o fato de todos serem irmãos em Cristo. “Tem muita gente solta por aí que não serve nem para primo”, costuma reproduzir meu “velho” e bom pai. Também não deve ser a condição de mamífero, bípede, com telencéfalo desenvolvido e a presença do polegar opositor. Agregar os homens em uma única categoria só pode ser coisa do medo. Isso mesmo: o medo. Sem me esconder atrás de moitas, reafirmo: o medo.

Mas do que é que temos medo? Muitas pessoas costumam materializar o seu em insetos e bichos horripilantes ou peçonhentos: barata, rato, aranha, cobra venenosa etc e etc. Um pavor genuíno, claro, porém não o único nem o maior de todos. Outras morrem (metaforicamente) ao pensar no desconhecido: morte, espíritos desencarnados, mula-sem-cabeça, saci-pererê. Alguns medos são mesmo ridículos, entretanto, devemos lembrar da máxima dificílima: respeitar as limitações dos outros, sejam elas provenientes de medos reais (criminalidade, avião) ou imaginários [ser traído (a)].

Tem gente que tem medo de dar o primeiro passo para a novidade e passa a vida inteira enfurnada numa mesma coisa, que já não lhe rende ou acrescenta à vida. Por outro lado, alguns não querem parar no tempo e vivem dando voltas, sem saber o porquê, ao certo, e nem qual a melhor hora de parar. Estes têm medo do sedentarismo – de atitudes, principalmente. Pais têm medo de perder os filhos; filhos têm medo de perder os pais. Meu namorado treme ao ver um cachorro passando a léguas de sua pessoa, eu adoro animais de estimação e não podemos nem sonhar em ter medo de viver junto. Um dia teremos, enfim, de encontrar nosso ponto de equilíbrio – mas torço muito para que não seja um poodle.

Entre esses, o pior deve ser o medo da vida. Necessariamente, das surpresas que ela pode estar preparando em seu laboratório de experiências desenfreadas para mim, para ele, para você! Para quem tem medo de desfrutar da intensidade que é viver, sobrará a insegurança gratuita na hora de conhecer pessoas novas – que podem se mostrar bacanas ou intragáveis. Sobrará a pouca chance da experimentação, da pitada de aventura, da palavra dita com a maior sinceridade. E, se acaso este medo acabar, poderá ser o triste sinal de que acabou a vida. Mas restará ainda, quem sabe, o medo do que virá.

(Original publicado em 12.02.009)

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