09 junho 2009

Esconderijo secreto

Apesar das constantes acusações contra a internet, principalmente no que diz respeito ao império da fragilidade nas relações, vejo tudo isso de maneira diferente. É claro que não devemos confiar perdidamente em um amigo que acabamos de conhecer numa sala de bate-papo – lugar que é apenas uma extensão da "vida real". Vai dizer que você dá crédito ao primeiro que conhece na fila do banco? Enfim, acredito que as relações virtuais (entre adultos) não são mais inseguras do que as “reais”, e a prudência vale para ambos os casos.

Um dos fenômenos que considero mais interessantes – e veio a reboque da internet – é a capacidade, quase frenética, de conhecer pessoas. E pessoas são pessoas em qualquer circunstância: pouco importa se estão escondidas atrás de pseudônimos. Converso com gente que diz morar em Londres – e daí se morar em Londrina? A conversa será pior? A pessoa deixará de ser interessante? Não, é a minha resposta. Algumas delas vivem, notadamente, numa timidez social quebrada apenas pelo barulho das teclas digitando login e senha; atitude que lhes dá a plena sensação de ter atingido uma liberdade inalcançável.

E digo ainda: quando escondidas atrás de identidades fictícias, essas pessoas tendem a ser mais sinceras do que seriam carregando o peso de um nome e sobrenome nas costas. Falo isso sem conhecimento científico, mas confesso já ter usado “nomes discretos” em programas de conversação – se eu me chamasse Ana, quem sabe usasse Ana mesmo, o problema é que me chamo Isolda. Ser quem “não somos” faz com que encaremos sentimentos nossos de uma forma mais bem humorada e simplista, até os de derrota, fracasso. Indico a “aventura” para quem tem internet em casa. Como uma espécie de análise sem custo adicional.

O lado triste nisso é constatar que, protegidas pela tela de um monitor, as pessoas sofrem quase sempre do mesmo mal declarado: a solidão. Elas se sentem cada vez mais sozinhas e incompreendidas, ainda tendo marido, pai e mãe, namorada, amigos de “baladas”. Talvez seja este sentimento que as leve cada vez mais, e mais, para frente do computador e da internet. Ferramentas que nos ofertam a opção de brincar de viver, mas também – não se enganem! – de experimentar o outro lado da vida. Vivos.

(Original publicado em 19.02.009)

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