06 junho 2009

Os lábios que amamos

“Quando estamos longe dos lábios que amamos, só nos resta amar os lábios que estão por perto”. Os dizeres, atribuídos ao escritor Tomas Moore, são meus conhecidos desde a adolescência. E se somos adolescentes, as coisas todas parecem ter outro sentido. Adolescentes gostam de frases feitas, sensações arrebatadoras, namoro escondido, beijos de amor eterno. Gostavam, pelo menos. As do sexo feminino, especialmente.

Sem querer me infiltrar na inspiração genuína do autor, hoje vejo que a frase é bem mais ramificada do que me pareceu quando eu era uma adolescente, de não sei quantos anos, frente à dúvida cruelíssima de aguardar casta o amor verdadeiro ou desfrutar as paixões de época. (Risos) Bem, deve ser para isso que crescemos: para aprender a ler nas entrelinhas. Depois de adulta, a leitura deste pensamento me fez perceber a importância de viver um momento que se apresenta favorável, mesmo quando ele não parece o projeto de ideal que traçamos. Na esfera do amor, claro – porque muito de “amar” é idealismo puro – assim como nas demais esferas, sobretudo as do pensamento.

Todo mundo deve conhecer a história de alguém que recusou um bom emprego porque estava à espera de um melhor, que deixou de levar o livro para casa porque o autor era um completo desconhecido ou, simplesmente, que tem medo de mudar a marca do xampu porque o cabelo se acostumou àquela. E nem precisamos negar que este alguém possa ser você, ele, eu – vivemos bobagens a cada instante. Às vezes por confiar no nosso “taco” (metáfora explorada pelos [pseudo] auto-suficientes). E outras vezes porque, seguindo regras, acreditamos saber jogar sinuca.

Os lábios que amamos, enfim, são nossos projetos de vida, nossos alvos, de fato. São a porcentagem que falta para a conquista. Só não deixemos de ver aqueles que estão por perto. Uma ressalva apenas: eles, como qualquer decisão, podem ser nossa ruína ou nos proporcionar o experimento do melhor beijo – até que o próximo beijo venha.

(Original publicado em 07.01.009)

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