09 junho 2009

Ser quando crescer

Dia desses, prestando atenção na vida alheia dentro de um ônibus semilotado, ouvi o pai dizer orgulhoso para uma amiga que seu filho gostaria de ser médico quando crescesse:

- Não é, filhote?, perguntou o homem, como se a comprovação do menino fosse indispensável para inflar ainda mais o seu ego paternal.

- Hum-rum, o guri balançou a cabeça em sinal positivo, enquanto parecia lhe interessar mais o carro de churros ao lado do ponto. O motorista arrancou e a viagem prosseguiu.

Impossível não lembrar de uma pergunta que me rondou vários momentos da criancice: o que você vai ser quando crescer? Naquele tempo, a resposta era tão intuitiva que chegava a ser fácil. Minha primeira opção? Policial – após ter sido socorrida por um militar no episódio em que enfiei o pé no raio da bicicleta Caloi da minha mãe. (Risos) Já devo ter contado isso por aqui.

Passadas as primeiras ilusões eu quis, nos meus sonhos de infância, ser professora. Então, juntava uma sala de aula fictícia em casa, formada, basicamente, por primos e amigos mais novos; subalternos. Eram meus alunos, enfim, e a posição de mestra sempre me fascinou. E olha que já se dizia que o magistrado era um emprego sem futuro. Mas me digam qual criança – com todas as prioridades da idade em dia – pensa em futuro? A idéia de futuro mais longínquo que tinha era, por certo, as férias do final do ano.

Num último caso, quis ser jornalista – já pré-adolescente. Tenho, inclusive, um vídeo caseiro onde entrevisto o jogador Romário (meu primo, Danillo) me fazendo passar pela Glória Maria (???). Os nossos desejos de criança devem parecer infantis, manda a própria cronologia, mas não são bobagens – como alguns insistem em dizer. Talvez o meu jornalismo vocacional tenha vindo no encalço da crença de poder ser piloto de avião, médica, atriz de teatro, veterinária, fazendeira, comerciante etc.

O que vejo hoje, e me surpreende, são pais criando filhos muito pequenos ainda como se já estivessem formando grandes profissionais – o que deve ser uma preocupação, claro, não necessariamente prematura. Torço para que um grande médico de amanhã, por exemplo, seja apenas a moldura do grande homem que está por trás da profissão. E que as crianças continuem sonhando ser o que jamais serão.


(Original publicado em 28.02.009)

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