09 julho 2009

Um pouco de mim e de outra Isolda

Muitas pessoas perguntam se meu nome faz alusão ao clássico medieval Tristão e Isolda – lenda que, comenta-se, foi inspiração para Romeu e Julieta, de Shakespeare. A verdade é que não há uma ligação direta com a hipótese, como contarei num breve relato que ouço desde cedo.

Era década de 1970, quando meu pai – músico e poeta (se é que isso não é redundância) – conheceu as músicas de Milton Carlos e se apaixonou por elas. Até hoje o ouço cantar, declamar e elogiar de todas as maneiras o artista, que faleceu precocemente num acidente automobilístico em 1977, quando no auge de uma carreira que incluiu cantar e compor para Roberto Carlos. Após a morte de Milton, sua irmã, que compunha com ele, escreveu a música “Outra vez”, um sucesso estrondoso na interpretação do rei e que fez meu pai ter a certeza de que, ao ter uma filha, ela se chamaria Isolda, como a compositora. Passado algum tempo, meus pais finalmente se conheceram, casaram, minha mãe engravidou e em 1984 nascia a Isolda que vocês conhecem – a primeira filha, uma menina, como ele queria.

Quase 25 anos depois, com a mão que afaga e apedreja da tecnologia, tive a chance de encontrar a Isolda que inspirou meus pais a me darem um presente que levarei para a vida inteira: o nome – que, cá pra nós, adoro. Foi uma emoção, confesso, e através de breves contatos conseguimos bater um papo virtual que deu origem ao texto a seguir. Espero que gostem, é de coração.

Meu agradecimento especial a minha xará Isolda, pela disponibilidade e simpatia.

Isolda, outra vez

Quem já escutou o trecho “Você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços o que eu nunca esqueci” conhece um pouco da alma de Isolda Bourdot, compositora de “Outra vez”, canção imortalizada na interpretação de Roberto Carlos. Antenada com as novas tecnologias, Isolda, que tem mais de 300 composições gravadas por vários artistas, encontrou há cerca de dois anos uma nova forma de expressão: o blog. E enquanto não está compondo, cantando, escrevendo, montando peça de teatro ou tocando seu selo e editora, a artista pode estar blogando no conforto do lar, em São Paulo.

“O blog Falando Nisso... foi sugestão de uma amiga jornalista e nasceu com a intenção de me aproximar mais das pessoas que me mandavam mensagens pelo site, por e-mail ou carta”, relata a compositora que também elenca entre as motivações para a criação do weblog o gosto pela leitura e escrita. A árvore tem dado bons frutos, pois se percebe na página de comentários o teor de diálogo trocado entre blogueira e visitantes; alguns deles aparentemente são fãs de longa data, outros parecem envolvidos no encanto da primeira conversa. A anfitriã recebe como ninguém e se mostra à vontade diante das companhias absolutamente reais que o mundo virtual proporciona. “Prefiro encarar o blog como um lugar de muitas venturas. Gosto de dividir meus pensamentos, de ler opiniões a respeito. As desventuras nem lembro mais, costumo esquecer”, diz, pacífica.

Alguns cuidados, porém, são indispensáveis antes de se expor na vitrine da internet para um sem-número de expectadores potenciais. Isolda tem lá seus cuidados, um deles é moderar os recados enviados: “Como o blog está exposto não só aos amigos, mas também a pessoas que podem ou não ter boas intenções, há a necessidade de um moderador. Embora nunca tenha acontecido algo desagradável nele”, garante. Em se tratando de exposição na rede, a artista parece ter a medida certa entre o permissível e o invasivo: “Meu limite é o mesmo que tenho através das minhas canções”, define sem muitas palavras nem censuras.

Carregando traços da compositora que é, a blogueira abusa da inspiração para escrever os posts – relacionados ou não à música – e afirma não haver periodicidade para eles, registrando sempre que lhe dá vontade, sem dias exatos, horários estipulados ou qualquer agendamento. E como não poderia deixar de ser, confessa-se leitora de outros, e variados, blogs: “Depois da música, do cinema, do teatro, sou uma apaixonada por moda, que não deixa de ser uma arte. Vai depender do momento”.

Tecnologia e arte

Isolda acredita que as novas tecnologias abriram as portas para um mundo mais independente e, completamente familiarizada com elas, já compõe direto no computador: “Com a internet tudo ficou mais ágil; gravações, letras, novas melodias etc. Tudo pode ser arquivado e revisto com maior rapidez, além dos contatos, não importando onde estejam. Além de compor, escrevi um livro e estou escrevendo outro direto no computador”. Entre outras vantagens desse ‘admirável mundo novo’ está a independência do artista em relação às gravadoras, e até mesmo aos estúdios, para fazer e mostrar seu trabalho: “A maioria dos nossos profissionais tem seu home studio (estúdio de gravação montado no computador) e muitos divulgam simplesmente pela internet, conseguindo ótimos resultados”, comemora.

O outro lado da moeda é a disseminação de downloads free, um entrave para o trabalho do compositor, segundo ela: “Os compositores que viviam apenas de músicas gravadas (sem shows ou CDs) tiveram que repensar e buscar outra forma de sobrevivência. Aliás, não apenas os compositores, mas todo um universo de pessoas que trabalhava em torno da gravação: músicos, arranjadores, produtores musicais, estúdios etc.”. Ainda de acordo com Isolda, há uma tendência de que tudo se normalize aos poucos, já que as empresas estão tomando providências legais para impedir a facilidade do internauta em baixar músicas gratuitamente: “Era de se esperar, pelos enormes prejuízos das multinacionais”.

Futuro e passado

Em se tratando de futuro, Isolda é enfática: “Minha ambição profissional no momento é montar minha primeira peça musical infantil, terminar meu segundo livro (autobiográfico) e fazer crescer a empresa Toca Disc, enumera. O primeiro livro, ‘Você também faz músicas?’ – lançado pela citada empresa cultural, sociedade entre ela e uma amiga – é considerado um guia para os novos compositores que esbarram em questões práticas, desde a escolha para uma parceria até o direito autoral. Sensível à causa, a compositora se dedicou a escrever sobre o que tem aprendido ao longo da carreira. “O livro teve uma aceitação muito boa e já está sendo revisado e atualizado para ser publicado em nova edição até o final do ano”, adianta, cheia de propósitos difíceis, mas não impossíveis, como faz questão de frisar.

Apesar de atualíssima, é certo que o passado, vez por outra, venha lhe fazer companhia, naturalmente. Isolda Bourdot – que ganhou o nome inspirado no clássico medieval Tristão e Isolda – se envaidece, sem soberba, de saber que algumas meninas foram batizadas em razão de sua música, enquanto lembra ter ouvido histórias de casais que se reconciliaram com o mesmo repertório, muitos deles ao som do sucesso ‘Outra vez’: “A verdade é que essa canção tem alguma coisa que traz sorte para quem canta, grava ou de alguma forma trabalha com ela. Começando por mim, claro”.

FOTOS: GOOGLE IMAGENS.

5 comentários:

Isolda disse...

Oi xará,
Muito bom seu texto sobre a entrevista e muito gentil de sua parte. Adorei. Parabéns. Beijos

Rafael Belo disse...

Só repito sua ilustre xará. Pnso que quem compõe sempre escreve sa profundzas do coração. COnsegui entrar aee. bjs Is, bom domingo

Fabiana disse...

Isolda, adorei a entrevista e o texto. Parabéns!

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom

Nayane Kastter disse...

Gostei muito!!! Excelente!!!