14 julho 2009

Conto morno numa terça-feira quente


Ele foi embora e deixou com ela a saudade. Porque ficaram as coisas espalhadas pela casa – será que não dava para levar aquela pequena história na mala?aquele verso de amor que já nem se diz mais e ficou em cima do guarda-roupa?o trema da antiga ortografia? Parece que não, e tudo estava ali, desde a porta da sala, fitando a sua solidão calada.

Eu não deveria tê-lo deixado ir, pensou, como uma garota mimada. O que chegava a ser um completo absurdo, pois ela sabia das pessoas serem donas de suas próprias idas, e vindas. Elas podem bater a porta sem dizer se voltam qualquer dia desses e querem encontrar o local desocupado. Num primeiro momento, fez que não ligava: ajudou com a bagagem até que o taxi chegasse. Mas esperava um deus qualquer que viesse dizer em sua onipotência: fique, meu rapaz. Para que ele ficasse. Aconteceu de o taxista chegar, colocar as coisas no porta-malas e ir embora, carregando uma vida inteira no banco de trás – o que deve ser comum da profissão.

Quando subiu a escada – ela não reparou, mas – não tinha mais unhas. Trocou a chave do portão pela da porta de casa, a da porta pela do cadeado e a do cadeado pela do portão, sequencialmente. E olha que aquilo era coisa rara de acontecer. Deu-se uma vez apenas, depois dela ter perdido o emprego, o pai, o trem e a coleção de discos de vinil, em um único mês.

Ela disse a si mesma que dormiria cedo, não sonharia com as noites passadas e o outro dia seria um domingo chuvoso daqueles em que a alma é o único refúgio dos vivos – visto não crer nos mortos e desalmados. Mas foi mais difícil do que isso. Levantou inúmeras vezes, caminhou até a janela, olhou pela brecha da porta na esperança do alguém que foi embora mandar dizer que já volta.

Imagem: Google Imagens.

5 comentários:

julio onofre disse...

Realmente eu me identifiquei...

Rafael Belo disse...

Não tinha lido um conto seu ainda. Envolvente como tu. "Levantou inúmeras vezes, caminhou até a janela, olhou pela brecha da porta na esperança do alguém que foi embora mandar dizer que já volta". Ótima conclusãoo. Chegou a ver as minhas perdidas no meu lar virtual? beijos Is

Deise Anne disse...

Lindo conto. Fineza nas palavras, final surpreendente.

Parabéns, Isolda!

Beijos

Rafael Belo disse...

Não tinha ouvido ainda... Sua "interpretação" de si me deixou um sorriso. "romantismo traz um pouco de fragilidade - só pra saber. Ótimo ouvir os bastidores e saber qu não gostas de acordar romântica. Não sei por quê me lembrou "NEcessidades" que acabei d postar beijos IS

Anônimo disse...

Mestra Isolda,

Conheço poucas pessoas
Que dizem tudo tão bem.
Ninguém sabe a quantidade
De estações que você tem.
Sem perder a maestria,
É morna, é gelada, é fria,
Mas pega fogo também!

Parabéns!!!!!!!