17 julho 2009

O caminho do meio


A vida de todas as pessoas deve ser baseada em decisões que se toma ou deixa de tomar: quando partir, para onde ir, se valerá o esforço, qual a probabilidade de dar certo, enfim. E há um momento crucial, embora demasiadamente desprezado, cuja localização exata é além do primeiro passo e aquém da linha de chegada: o meio do caminho.

Um lugarzinho chato, é verdade, porque as coisas demoram a acontecer – sem aquele impulso do início nem o alívio do fim. Ou seja, tudo o que já começou e ainda não terminou figura esse caminho do meio que, para todas as situações, precisa existir. E como é importante a presença dos seus, para fazer companhia, dar conselhos baratos, seguir calado... Fundamental, porém, é saber andar sozinho, sem as terríveis muletas que viciam e até condicionam o modo de caminhar. E ainda por cima não ser solitário ou ampliar melancolias.

Desfazer-se dos pesos da vida também se torna um desfio na medida em que todo desapego vai parecer doloroso demais. Então, as pessoas acreditam que aguentam o tranco, se dizem fortes para qualquer coisa, pois, em sociedade, fragilidade é dos piores defeitos. Lembranças empoeiradas, desilusões, amores passados, maus assombros, dias perdidos, conversas e gentes inúteis são capazes de aumentar – e muito! – o tempo de viagem. Não seria o caso de esvaziar a bagagem e seguir mais leve, um tantinho que seja?

Parece fácil, não é? Fácil porque é lógico, mas os esquetes do racional não valem tanto assim. Principalmente porque tudo o que vem da lógica exige muito do pensar. O grande mistério do meio do caminho deve ser esse: às vezes, só é necessário sentir.

Imagem: António Rocha.

5 comentários:

Rafael Belo disse...

Sentir é fundamental. As pessoas se sentem sozinhas porque não sabm sentir ou não querem conversar, se abrir. COmo postei a pouco, o passado inexiste e o amanhã também, acaba tudo "Só na lembrança". beijos Is, que belo post :D

Anônimo disse...

O caminho existe e, nele,
Rola o cumprir da missão.
Diga ao passado e ao depois
Pra não se meterem não.
Viva o hoje todo dia
E sinta a doce alegria
Do achado da solução!

Abraço do Pajeú

julio onofre disse...

Creio que o grande problema é permanecer no caminho do meio e o trem passar por cima.
Belo texto.
Bjos

Deise Anne disse...

Eu e um amigo falavamos das dores fantasmas que carregamos... gostamos muito de uma bagagem, viu? A gente passa a vida se arrastando pra carregar os excessos de bagagem que aparecem nesse meio caminho e nao consegue se livrar fácil deles.
Acho que somos muito apegados, não só a bens materiais, mas aos sentimentos, às lembranças e às pessoas. Seria mais facil viver sem apegos.

Helena Frenzel disse...

Interessante... ultimamente, em todo lugar que eu vou pareço topar com a mesma mensagem: sentir, sentir, sentir! Parece que o mundo "tecnotizado" nos esconde essa capacidade tão sutil que nos diferencia das coisas, os sentidos. De repente tenho um desejo de desligar... É isso! Vou passar uns dias "desligada" da internet e vou tentar captar o que sentir. Às vezes me parece que nós humanos, nos comportamos como cachorro correndo atrás do próprio rabo... Volta e meia bate um desejo de voltar às origens, ao primitivo. Será que é isso o que muitos definem como viver sobrecarregado? Gosto muito de vir aqui, Isolda. Um abraço fraterno prucê! :-)