07 julho 2009

O diálogo

Gosto de livraria. Pelos livros, como não poderia deixar de ser, mas também pelo cheiro, pela aparente calma de quase todas as pessoas, pela fidelidade ao silêncio (apesar dos adultérios), enfim. O ambiente me faz bem. Ao passar na frente de uma, arranjo o jeito de entrar e ficar alguns minutos.

E lá estava eu lendo o prefácio de um exemplar aparentemente genial, dias desses, quando me chamou atenção o diálogo entre duas meninas – de onze ou doze anos – sobre suas escolhas literárias. A loirinha com blusa do Jonas Brothers e tênis All Star dizia para a moreninha de trança no cabelo: “Vamos levar esse aqui, que é mais grosso do que o outro”. Curiosa nata, olhei discreta para o lado, porém não vi o título, rapidamente levado para debaixo do braço de uma. A dupla rumou para a prateleira a seguir, sempre conversando, e parou para flertar com ‘A menina que roubava livros’ (um dos que não li). Num primeiro momento achei tosco o critério delas, embora saiba que ele tem lógica. As pessoas costumam julgar o leitor ou, pior, o escritor pela brevidade ou longitude das páginas de um livro. Uma ignorância moderna, talvez com raízes clássicas. Como diz a propaganda de uma cervejaria: para bom entendedor, meia palavra basta. O chavão é uma verdade.

Não sei de onde tiraram a ideia de que um livro de mil páginas tem mais a dizer do que um de duzentas, porque isso não, necessariamente, acontece. É como se empunhar um volume bíblico conferisse ao ledor um almejado ar intelectual, completo, enciclopédico, o diabo a quatro. Eu sei, todos sabem: existe o momento melhor dimensionado através da extensão, pelo bem do entendimento e sentido da narrativa, entre outros motivos. Assim como há também autores que dão voltas ao redor do nada, na busca compulsiva por algumas páginas a mais sem acréscimo à obra; coisa que, como leitora, me deixa furiosa.

Depois do acontecido, não intencionalmente, troquei o livro de quase seiscentas laudas, que estava namorando, por um de exatas 265 – muito mais barato e, por isso, mais cortês (com o orçamento do mês). Quando a adolescência passar, as meninas da livraria vão saber o que querem. O importante interesse pela leitura estava ali, concebido; o restante é fugaz: dá e passa. Sei como é e digo isso com a experiência de quem já quis casar com o Kevin dos Backstreet Boys, morar na Disneylândia, ver Deus... E, então, cresceu.

Imagem: Google Imagens.

6 comentários:

Vagner Cassola disse...

O primeiro livro que li (a uns 15 anos atrás) foi "Os Barcos de Papel", justamente por ser o menor livro que minha professora de português tinha em mãos, umas 80 pgs.
Interessante que muita gente que leu a série vaga-lume tem este livro como o preferido.
Hoje, meu critério de escolhas de livro é principalmente indicação, depois leitura de resenhas, autor, quando posso dou aquela olhada básica na aba do livro.

Rafael Belo disse...

Puxando do comentário do Vagner, eu lia livros menores... Primeiro! Chegava na biblioteca da escola e negociava quantos eu poderia levar e até quando teria tempo de lê-los. Mas era irrelevante. Começando pelo fininho e terminando com o mais grosso lia até terminar todos em um dia no máximo dois. Depois ia brincar... Comecei com os clássicos, Três porquinhos e tais deposi li toda coleção vaga-lume e assim vim! Sempre lia resenhas e ainda as leio e procuro variar as nacionalidades para recoinehcer características hehe Voltando ao texto... A lógica adolescente. O importante é começar a ler por algum critério bjs Is

Jamylle Bezerra disse...

Como você mesma falou, o passo mais difícil elas já deram - foi entrar na livraria, demonstrar interesse por algum exemplar. O resto vem com o tempo... o importante é ler. A leitura nos torna gigantes.

LeoKav disse...

bem, com relação a esse tópico, nunca parei pra pensar no tamanho dos livros que li... sempre lia algo por recomendação ou por interesse após ler a contracapa/orelhas.

vários livros ótimos q li tinham menos de 200 páginas (um copo de cólera, sayonara gangsters) mas confesso que hoje em dia tento equacionar conteúdo com tamanho...

isso porque torna-se muito frustrante vocÊ comprar um livro e terminar de lê-lo em uma semana! tipo, quando você começa a sem empolgar com o danado, ele acaba :p e ainda tem as 3 semanas do mÊs restando, haja dinheiro...

Deise Anne disse...

Ei, vc casaria com o Kevin se eu deixasse pq tb tava na fila, viu? rsrsrs
Mas às vezes eu prefiro usar os meus critérios intuitivos aos extremamente calculados que eu aprendi na vida adulta.
Cada um deles tem a sua sabedoria e razão aleatória de ser.

Beijos, Isolda!

Anônimo disse...

Por que nao:)