02 agosto 2009

Prozaquiana século XXI

Acho que depressão, a essa altura da vida, seria um grande desperdício de tempo. Afinal, quem ficaria com as crianças enquanto me deprimo, escura, num quarto negro como a minha alma? Eu não. E quando o esposo chegasse do trabalho, ávido por carinhos depois de um jantar de lamber os beiços: “Querida, traz um copo d’água gelada”, diria ele. E, deprimida, não seria possível levantar da cama para atendê-lo.

Caso eu tivesse um pouquinho mais de disposição, poderia até ser. Mas quem ficaria no meu lugar, esperando o telefone tocar e anunciar aquela proposta razoável de emprego que corro atrás há meses? Quem diria ao espelho o quanto me sinto feia, magra, impotente e que tudo isso passa sim, de impressão e chega a ser uma monstruosa verdade? Ah não. Não há quem me substitua nesses deveres domésticos.

E o supermercado? Não existe quem saiba pesquisar os preços melhor do que eu. Conferir nos rótulos o prazo de validade dos produtos, descartar latas amassadas, trocar o carrinho que pende para um lado quando direcionado para o oposto. Quem seria tão hábil na hora de devolver algumas coisas que não posso levar, porque o valor delas ultrapassou a cota do mês? Quem teria a paciência de enfrentar o ônibus lotado, as cantadas ordinárias no meio da rua, o sol a pino e a noite mal dormida até que viesse o amanhã começar tudo novamente?

Ainda consta na lista traição de marido, febrão do filho mais novo (que é asmático), falação da vizinhança, atraso na menstruação, rugas (pés de galinha, bigode chinês), uma trouxa de roupa para lavar cedo no domingo. Eu não entendo onde as pessoas reais encontram tempo para sofrer tanto. Só esse minuto em que sentei um bocado e comecei a escrever isso aqui, esgotou qualquer possibilidade de me deprimir.

Imagem: Google Imagens.

9 comentários:

julio onofre disse...

Realmente. Porém, o grande problema da depressão é que ela além de ser causada pelo meio ambiente - estressores externos, tem seu componete genético e bioquímico. Tipo a baixa de serotonina. Enfim. Essa é apenas um explicação científica pela dita merdicina. Mas o que vale mesmo é o eu, o nós e sua forma de viver.
Bjos.

Rafael Belo disse...

Depressão pra mim é aquele que vem me ajdar a escrever e logo passa em instantes pós escritos. COmo ficar bastante tempo deprimido e arruamr todas estas coisa Dio mio kkk Beijos Is.

ideiasdetalhesedicas disse...

Isolda, achei esse texto tudo de bom, realmente há mais que verdade ai. Vou linkar no meu blog. bjão!

Eduardo Leite disse...

Eu cansei só em ler, imagina tendo que fazer esse monte de coisa de verdade... To em depressão kkkkkkkkkkkkkkk

Fabiana Correia disse...

Obrigada pelas palavras lá no blog, eu não mereço!

Bjão!

Ludmila disse...

adorei a verossimilhança e decidi que não vou ter tempo pra depressão nunca. vai de reto!

Deise Anne disse...

Caramba... então viver é muito chato.
Nem quero me deprimir, nem viver desse jeito. Essa vida de mulher do lar não me atrai nem um pouquinho.
Eu quero viajar, estudar, ir pra bem longe e esquecer o caminho de volta. Deus me livre ter que me estressar pela vida dos outros.
Egoísmos a parte, vamos em busca de uma vida não-neurótica. Nem pela depressão, nem pelas obrigações, e nem mesmo pela 'dor' de ser mulher.

Rafael Doido disse...

Cada caso é um caso...
Mas a verdade disso tudo, é que temos tanta coisa pra se preocupar que pra ficar em depressão tem que marcar na agenda!
;D
Se cuida!!

Lidiane Vasconcelos disse...

Olá, Isolda!
Cheguei aqui por indicação da Fabiana, do blog “Ideias e Detalhes”. Que bom que ela fez isso, caso contrário estaria te perdendo.

Você é ótima com a escrita, e compactuo dessas ideias: me recuso a entrar em depressão.

É bem verdade que o corpo pede isso, porque motivos para ficar triste o mundo oferece aos montes, mas eu resisto enquanto posso, brigo, faço birra, e não me entrego. Eu não me dou esse direito, pelo meu bem...

Espero voltar mais vezes, há muito o que aprender com você...
Beijos!