06 setembro 2009

Eu, cartesiano?


Você já falou de alegria estando profundamente triste? Eu já. Mas não me reprove com o olhar de quem nunca fingiu – orgasmos, amores, lisura, vontade de fazer isso ou aquilo outro. A vida mente tanto e, vivendo, temos a perspicácia de notar que a verdade nem sempre é bom negócio.

Não fui eu, mamãe – dizemos na inocência da infância para escapar da surra do cinturão. Crescemos depois, transmitindo sem mea culpa o hábito para os filhos: “se Fulano telefonar, diga que não estou. Ouviu bem, menino?”. O menino não apenas ouve como aprende e passa aquilo a frente com a naturalidade de quem faz a coisa certa. Anos mais tarde nos perguntaremos quem o ensinou tais maneiras, numa espécie de indulgência da amnésia.

Fico imaginando como seria o mundo, utópico, dos sinceros. Sem vendedoras dizendo para clientes gordas que o número coube direitinho. Nem a fluência do “eu te amo” depois do sexo esporádico. Sem risadinhas para as péssimas piadas dos chefes. Nem lágrimas de crocodilo. Sem morrer de amores por sogras que disputam, como se estivessem numa gincana escolar, a atenção dos filhos. Nem fidelidade absoluta. Sem desejar ‘boa sorte’ a quem você quer ver se estrepar na próxima esquina. Nem a maioria dos abraços no réveillon.

Tem gente que prefere dizer que omite, como se não estivesse diante de um sinônimo para a mentira – uma grande estratégia, enfim: de ataque, de defesa. Posso estar sendo dura, eu sei, mas a dureza e a maldade são características puramente humanas, quando não simulamos uma bondade irracional querendo aproximação com o divino. Enxergamos com horror o falso testemunho e nos esquecemos de mencionar – no testamento, que seja! – que já precisamos dele até para honrar nossas verdades.

Imagem: Jorge Costa.

4 comentários:

Eduardo Leite disse...

Acho que seria impossível um mundo sem mentiras. Porque, quer queira quer não, verdades também são mentiras. A minha verdade pode ser mentira para outra pessoa. E nesse caso específico do telefone, a mentira vem mais por cautela, pra não dizer à pessoa que você simplesmente não está com vontade de falar com ela.

Deise Anne disse...

eu não gosto mais de falar da sinceridade ou com sinceridade... quem se preocupa com isso sofre muito.
prefiro criar uns personegens que falam de acordo com as circusntancias... fica mais fácil.

Norma disse...

Eu sou adepta de dizer a verdade, mas nem sempre é possível porque nem todo mundo está preparado para ouvir a verdade e nem todo mundo está preparado para sentir as consequências de dizer certas verdades em certos momentos.Outra coisa: hoje, o que é verdade dentro de uma situação, amanhã não é mais porque vc já mudou de opinião ou avaliação da situação. E se falou algo, como fica para "desfalar" depois? não dá...
Melhor calar ou dizer mentirinhas inocentes às vezes.
Palavras são como balas de revolver: depois que atirou, um braço...não tem volta.

Isolda Herculano disse...

Bem, eu não gosto de mentir, mas minto. Como quem não gosta de exercícios físicos, mas se exercita. As coisas todas são circunstâncias. Já disse meu primo Levi, sobre mentiras e seres humanos: é uma troca que dá certo.

Abraços.