16 outubro 2009

A menina que queria se casar

Eu era criança, mas já ao ponto de ir perdendo as inocências, quando comecei a pensar em casamento. O engraçado é que nenhum dos meninos ao redor parecia apaixonante; isso me leva a crer que eram as novelas da Globo pondo aquilo na minha cabeça e na cabeça de amigas minhas. Algumas pessoas preferem colocar a culpa nas brincadeiras de boneca, casinha, comidinha etc. Não faziam meu gênero, enfim. Matrimônio sim, queria muito casar.

Sobrenomes atraiam, ali, na bolha que eu chamava planos para o futuro. Não poderiam ser aqueles animalescos: Coelho, Carneiro, Leão, Bezerra – Pinto, então, nem pensar. Também não apeteciam partículas apassivadoras: Costa, Leite, Silva. Nenhum desses. Eu queria algo forte como Antunes, Macedo, Sampaio, talvez. Porém, o que mais combinava com meus outros nomes era, sem dúvida, Figueiredo. Cheguei a testar a assinatura com o Figueiredo por último; meus olhos brilhavam, caprichava na caligrafia. Depois amassava o papel, colocava no bolso e jogava no lixo fora de casa. E claro, rasgava antes.

O tempo me levou do primário para o ginásio, do ginásio para o ensino médio, do ensino médio para a faculdade e da faculdade para a vida. Em meio a tantas estações, nenhum Figueiredo cruzou meu caminho, não que eu saiba. E olha que, impulsivamente, prestava atenção nas chamadas em sala de aula, atentei para a lista do vestibular: vestígio algum. O crescimento trouxe Xavier, Santos, Neves, Braga e, por consequência, mandou-os embora. E resolvi deixar para trás, de uma vez por todas, o tal do Figueiredo. Ainda carreguei uns dias aquela cara de viúva que jamais se casou. Depois passou.

Hoje já não penso em Figueiredos. Nem em casamentos. E qualquer cerimônia do gênero: batizados, eucaristias, crismas, formaturas... Costumo chegar atrasada nesses eventos para ficar sempre menos do que as outras pessoas e culpo o trânsito, o vestido, o salto do sapato e até o meu atual companheiro, que, aliás, é dos melhores Pereiras que conheço.

Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
(Martha Medeiros)

Imagem: Pedro Libório.

9 comentários:

Ricardo Santos disse...

Nossa que texto gostoso de ler!
Dos que eu já li, esse foi uns dos melhores!
parabéns!
Mas tenho uma dúvida?
Porque você já não quer saber mais de cerimônias?

Magnoliasantos disse...

Casei há 8 anos com toda pompa e cerimônia. O que não impediu o dilúvio da relação. Hoje, de novo solteira, duvido se que aquele dia realmente existiu, se não foi um devaneio, um sonho de criança ...

Isolda Herculano disse...

Olha Ricardo, a menina do conto é uma personagem, mas, tenho com ela semelhanças sim! Por exemplo, também não gosto de cerimônias. Acho-as sempre muito iguais, chatas, demoradas, demagogas. Essas coisas. Não me emocionam, encantam, nada disso. Só dá vontade de cochilar ou ir embora. Mas gosto das festas que dão sequencia a elas. (Risos)

Professora Magnólia, verdade. Não é de pompa e cerimônia que vivem os homens. Menos ainda os casais.

Beijocas em vocês.

Clauderlan Vilela disse...

Muito bom!
Gostei mesmo do texto.
E, realmente, tais cerimônias estimulam os cochilos.
Eu, no auge dos meus 24 anos, tenho cá minhas dúvidas quanto à possibilidade de um enlace matrimonial. Mas ainda tá cedo...
Quem sabe? Um dia talvez.

Jamylle Bezerra disse...

Texto massa Isolda!!!!!

Mas o que você tinha contra os Bezerra! heheheheheh

Beijossss

Deise Anne disse...

Rituais de passagem são confusos pra mim...
Não quis festa de quinze anos, como minhas irmãs, e viajei com as amigas da escola e fiquei de pilequinho tomando licor de menta.
Faltei a minha colação de grau, senti que deveria passar por ela e 2 anos depois, vesti beca, fui lá tirar uma foto, fazer juramento na festa dos outros...
Talvez com o casamento seja a mesma coisa pra mim... nunca planejei e até hoje isso é algo meio obscuro pra mim.
Acho que cumprirei a tradição chegando atrasada pra cerimonia. rsrs

Neto disse...

Muito interessante e reflexivo Isolda!

Como sempre podemos aprender muito com as 'visões' de outras pessoas acerca do mundo. Obrigado!

Seu blog foi para meus favoritos ok! :D

julio onofre disse...

Que texto bello. Essas crianças andam muito precoce nos dias de hoje, sorte que esta do texto era visionária.
kkk
abraços.
pereira né...

Eduardo Leite disse...

O que há de errado com o "Leite"? :XXX Preciso mudar de sobrenome kkkkkkkkkkkkkkkk