26 outubro 2009

Não existo. Resisto.

Alguém tenta me convencer de que a vida vai melhorar. Meu desejo imediato é rir abundantemente, pois deve ser a milionésima vez que ouço o discurso em duas semanas, sem exageros. Relevo por não querer discutir, não ali e muito menos com uma pessoa querida. Então, acendo um cigarro – já que leis antifumo exercem poder nenhum no campo literário – e por poucos instantes finjo acreditar naquilo. Mesmo tendo limitadíssimo senso fingidor e poeta. Antes de fechar a porta agradeço a visita.

Na passagem para a cozinha penso em todas as receitas caseiras passadas ao longo de tudo: pelas colegas da faculdade e do emprego, pelas primas e até por uma desconhecida no ônibus que jurou decifrar meu carma, assim, só de olhar – e deixou o telefone para que eu encomendasse um mapa astral. A unanimidade é que devo arranjar um amor, como se amados fossem coisas de se escolher em mostruários, experimentar e levar para casa numa sacolinha simpática, dessas que não rasgam no caminho. Também aconselharam viagens, sexo, um guarda-roupa novo, sexo, um animal de estimação, sexo, religiões, sexo, produção independente e uma pausa no sexo. Mais ou menos nessa ordem.

Bebo água no gargalo da garrafa (hábito dos solitários?) e vou rumando para o quarto, sem sono. Infelicidade e insônia parecem amigas inseparáveis e, talvez, insuperáveis. Porém, não desisto – quem sabe esqueci de mencionar que com aquela água se foram dois comprimidos, fortíssimos – e logo estarei sonolenta. Se ainda há tempo de pensar algo? Claro. Geralmente fatos desconexos que, no fundo no fundo, são meus desejos ocultos; pontos obscuros fora do acesso do resto do mundo.

Sim, disseram para eu ter a paciência de um monge do Nepal, que vivo agora um período de transição, embora nada detalhado. Deve ser para que fique com essa sensação de estar saindo não sei de onde rumo a algum lugar que desconheço. E posso dizer que isso mais atrapalha do que ajuda. Mas pouco adiantará, as pessoas continuarão a me dar conselhos.

E hoje, repetindo Bataille: "Sinto-me livre para fracassar".
(Hilda Hilst)


Imagem: Maria Clarinda Galante.

6 comentários:

Jamylle Bezerra disse...

Belo texto Isolda. Como sempre, gostoso de ler!

boa semana pra você!

beijo

Eraldo Paulino disse...

Detesto conselhos óbvios. Ninguém precisa deles...

Deise Anne disse...

Os capítulos difíceis e mais tristes das histórias são sempre os mais belos e marcantes.
Às vezes é preciso aprender a ser triste pra saber o que é ser feliz.
Um texto triste e bonito, Isolda!

Maria Clarinda disse...

Vi hoje esta minha foto no teu blog...chamou-me a atenção.
Obrigada, adorei o teu blog!Voltarei mais vezes.Jhs

Milton Guedes disse...

Deve ser os comprimidos...
Sim, gostei do texto.

Helena Frenzel disse...

Como escritora tenho tentado não ir logo caindo no Blá-Blá dos colegas (escritores), coisa do tipo: se é realidade, ficcão, realificção ou outras combinações possíveis. Confio na história e não no escritor, né assim não? Eles mudam muito, já a história... essa não. Todo dia é um estado diferente... Se estou aqui para dar-te conselhos? Não! E Sim para viajar na cadência dos teus textos e suas impressões - as que me causaram, claro! No contexto deste texto, a saber, da solidão, ao invés de conselho ofereço-te uma simples sugestão: continua escrevendo que passa! Um abraço fraterno :-) Cumprimentos pelas belas produções.