07 outubro 2009

A tal

Estive pensando em escrever sobre felicidade, mas desisti. O tema, ao que parece, já não me atrai. Fala-se tanto nisso e com tanta propriedade – como se ninguém tomasse remédios antes de dormir nem pensasse em suicídio de vez em quando nem quisesse jogar tudo para o alto nem ofertasse a alma ao diabo a preços populares.

Além do que, as pessoas se zangariam quando eu lhes pedisse, sem insistência, para criarem menos expectativas sobre a vida. No fundo no fundo, o que elas mais desejam é continuar a perseguir os próprios rabos, como mártires, garantindo a eternidade do movimento de rotação da Terra. Qualquer tolo sem o primeiro grau completo sabe dessas coisas.

Dizer que a felicidade não existe, o que existem são momentos felizes, também é outro daqueles ditados chulos, pequenos, um tipo de raciocínio golpeado pelo tempo, embora tanta gente o tenha noticiado como a grande descoberta do século – e vendido livros com isso. Todos os poetas e cientistas já a traduziram: do manifesto à endorfina; e permanecem infelizes, contando histórias que eles próprios não acreditam.

É por essas e muitas outras que me abstenho diante do assunto, tão escuro e cheio de evidentes enganações, vielas estreitas. Afinal, a felicidade precisaria ser, ao menos, algo mais do que uma frase feita.

Imagem: Paulo de Sousa.

7 comentários:

Salomão Miranda disse...

Vc diz que se abstem do assunto, mas acabou criando um texto sobre a felicidade.

rs

Beijo

Isolda Herculano disse...

Pra você ver como são essas coisas de felicidade, vida, escrita. A gente diz que o melhor é não meter o bedelho e... se engana.

Beijo.
Saudade, menino!

Deise Anne disse...

O obscurantismo de onde reside a felicidade também me cansa, mas ainda nao desisti de me sentir feliz vezpor outra.

Jamylle Bezerra disse...

Quando saber que estamos felizes? Acho que essa é a grande questão, pois o velho ditado de vez em quando insiste em invadir o nosso dia a dia e a frase surge: era feliz e não sabia...

Beijo

Anônimo disse...

MAS SERÁ QUE EU SOU FELIZ
E TÔ ME ENGANANDO À TOA?
E AS ALEGRIAS SENTIDAS?
E O SORRISO DAS PESSOAS?
E OS "BOA NOITE!" ESCUTADOS
DESEJANDO NOITES BOAS?

FELICIDADE, ISOLDA! VOCÊ MERECE!

julio onofre disse...

Eu quando tinha uns 14 anos me meti a besta e li um livro de Shopenhauer. Uma de suas especilidades, que inclusive influenciou gerações posteriores como Niestczhe e Sartre, era o estado de eterna desgraça que o homem vive. Em uma das passagens ele diz - "a vida é um pêndulo entre o tédio e o sofrimento" - isso me marcou até hoje. Outra também foi - " o pássaro canta na gaiola não de alegria, mas de raiva" - enfim. Por essas e outras que acredito quenossa vida é um ditado chulo desse. Mas ao mesmo tempo não acredito em mim mesmo, pois 'os sentidos nos engana', já falava platão ou você mesmo. Muita filosofia hoje. Putz.
Bjos e te amo.

Janine disse...

Felicidade é sempre relativo, abrimos uma série de ciclos a serem preenchidos, quando conseguimos descobrimos que queremos mais que aquilo. Na escola: quer passar no vestibular; na universidade: quero concluir sem atrasos; na universidade 2: quero um emprego quando sair daqui; no emprego: quero sair da cidade; fora da cidade: quero voltar pra casa....
e por aí vai...

bjo Isolda