22 novembro 2009

O cachorro do vizinho

Da varanda de casa – a terceira que ocupo na Rua Joel Vieira dos Anjos – avisto um cachorro que a mim parece solitário. Posso estar errada, porém imaginemos que esteja correta e aquele cão, um pastor sem fé e alemão sem nazismo algum, seja mesmo pura solidão para que eu possa completar a narrativa em paz.

O cachorro encosta ao portão e vê os carros passarem além dele, do lado de fora da grade que o separa do mundo ou pelo menos lhe devota a eterna posição de expectador. Ele coça uma pulga atrás da orelha antes de olhar para o lado de lá e as cenas vão se repetindo no seu restrito campo visual, como um vinil riscado. Quem se aproximar dali esbarrará indesviavelmente no latido protetor a indicar o dono do território; algumas pessoas se assustam e riem, outras praguejam qualquer coisa que do primeiro andar não escuto bem, mas compreendo.

Há também os outros cachorros que, amaldiçoados na própria liberdade, passam por aquele domesticado e fazem pouco. Latem alto sem tabus, deixam suas necessidades nas calçadas, atravessam a rua descuidados, vasculham o resto do meu lixo e do lixo do vizinho, dando fim às sacolas plásticas que julgávamos tão funcionais. Esses, ao contrário de nós, jamais estão sós, andam sempre em companhia dos seus iguais. Também não param tanto tempo para contemplar a paisagem e refletir sobre ela, já que são a própria paisagem.

Meu amigo pastor alemão e eu, contudo, ficamos a olhar a vida um pouco mais, como se ela fosse um intervalo para pensar. Vou gastando o meu latim, ele vai gastando seu latido. Bem verdade, nem sei se é um cachorro – quem me garante que não seja uma cadela? Então seremos eu e ela.

Ninguém é mais escravo do que aquele que se considera livre sem o ser.
(Goethe)


Imagem: Google Imagens.

5 comentários:

Jamylle Bezerra disse...

Que lindo Isolda. Pastor Alemão é mesmo uma raça adorável. Tenho um na casa dos meus pais, chama-se Quéops e já tá velhinho, mas não esquece de mim e nem das minhas irmãs, que passamos dias sem ir lá. Suas orelhas já murcharam e por isso ele nem ouve tão bem como nos velhos tempos, mas continua fiel aos instintos não deixando que ninguém estranho se aproxime da casa.

Beijos

Richard disse...

Muito interessante o seu estilo de escrita.
Eu mesmo poderia descrever essa situação como:
O cachorro preso viu os outros passando na rua e latiu e eu, lá de cima vi tudo.
Você não, você detalhou e o melhor, de forma tão suave e deliciosa de ler que prendeu minha atenção até o final.
Para a minha primeira vez aqui, você me pescou. :)

Eduardo Leite disse...

"Vou gastando o meu latim, ele vai gastando seu latido."

Muito bom! É a Isolda, né? Não tem como não ser otimo.

Helena Frenzel disse...

De escritora para escritora lhe digo que a sua escrita, claro, grita: "o exercício faz o mestre!" Cada novo texto seu, que leio, dá-me mais prazer em ler, girar e voltar a aportar por aqui... Não vou te parabenizar para não incorrer em pleonasmo, mas só por isso, viu?! Muito mais inspiração, um fraterno abraço :-)

Anônimo disse...

Querida menina Isolda,
Tua pena é sempre 100!
Se esse pastor alemão
Do qual disseste tão bem,
Em vez de latir falasse,
Te aplaudiria também!