05 dezembro 2009

Por que escrevo

Sem palavras não há quem resista a essa batalha: vida. E como se falar não bastasse – realmente não basta – eu escrevo. Nem lógica nem devaneio, escrevo por paixão e a paixão não segue pautas, desconcentra-se de enredo. Escrevo pelos cotovelos, exageradamente (ainda quando a ocasião não pede), mas com a cautela de quem sabe que palavras machucam e assim como abrem, fecham feridas; acalentam ou escandalizam civilizações inteiras.

Escrevo feito bardo, rimando mesmo incertezas, dando um suavizar quase dançante ao balé das letras por sobre a folha branca. Em pouquíssimos instantes, o ato, o hábito: poesia. Escrevo porque leio e discordo, porque me sinto no dever de elogiar o que gosto e receber críticas, ainda as pouco sensatas (de qualquer forma é o que escrevi, ali, lido). Escrevo porque tenho a impressão de que, mais cedo ou mais tarde, alguém enxergará além da embalagem de osso e carne que me sustenta e representa ainda tão pouco de mim. Escrevo quando algo me inspira e se a inspiração falta: rubricas, frases batidas, rabiscos... Escrevo também por questões fisiológicas, predisposição genética, hereditariedade, vício e comodismo.

Escrevo por necessidade cotidiana. Preciso escrever a lista do supermercado, o bilhete da porta da geladeira, assinar o cheque, a entrega, o contrato, responder e-mails, psicografar. Escrevo porque posso sair do mundo quando bem entender, voltar e, já sem tanta ânsia, progredir comigo e com o instante que me envolve. Escrevo para encontrar meus erros ortográficos escondidos, entre o hilário e o estúpido, e aprender com eles; para consultar o dicionário mais vezes.

A escrita me preenche o vazio eremita, transporta um pensamento a muitos outros que habitam dentro de mim um espaço tantas vezes inexplorado; e eu mesma me desbravo e colonizo. Escrevo sem posição preferida, pois a mente abre mechas para que tudo se comporte confortavelmente no limite do possível e do incompreendido. Escrevo cartas para comprovar que a distância é uma grandeza quilométrica e a ausência não existe de fato. Escrevo porque tenho saudade das minhas memórias e me alegra saber que há lugar para elas fora de mim; e invento histórias.

Escrevo porque a realidade, em si e só, não contempla todas as carências da minha vida prática – também faminta por fundamentações teóricas. Escrevo para fugir das normas e, quem sabe num vão momento, acreditar que a vida possa se adequar às saídas simples e rápidas, como o virar de uma página.

"Para escrever bem deve haver uma facilidade natural
e uma dificuldade adquirida "
( Joseph Joubert )


Imagem: Mario Sousa.

5 comentários:

Anônimo disse...

ISOLDA, eu também escrevo
Poemas pobres demais.
Quem dera ter nos meus textos
Uns tostões dos teus sinais.
Você domina o infinito
E, além escrever bonito,
Sabe dizer por que o faz.

Eraldo Paulino disse...

Fatos:

Escreve. Pode. Sabe. Deve (?).

Jamylle Bezerra disse...

Graças a Deus que você escreve e nos presenteia com palavras sensatas sempre!!!!!!!

Beijos

Deise Anne disse...

concordo com a Jamylle... você escreve com uma sobriedade invejável.
é como se escrever fosse falar e falar fosse escrever, um ato reflexivo, um exercício de ser você mesma.

Jorge Luiz de Souza Jr. disse...

Nossa..encantadíssimo,plenamente.O que presumo atingir com Erudição,você,Isolda,faz com objetividade e simplicidade.E não seria injusto eu dizer que é a tua escrita a minha antítese!
Belo texto,continue,escrever certamente está no teu delicado e fumegante sangue.
Abraços.

J.L.