10 janeiro 2010

Para que serve a solidão

Eu não gosto de olhar a solidão com cara de poucos amigos e extrair dela apenas o vazio que é visível e óbvio. Estar sozinho – e suportar tal condição – deve ser um exercício de paciência, administração de tempo e tolerância consigo. Alguns se saem bem na tarefa, outros desvalorizam o momento de introspecção que contraria os moldes atuais do online. Por que hoje o excesso de presença tornou a ausência meio dispensável.

Conheço pessoas com verdadeiro pavor de ficar a sós e elas estranham quando desligo o celular, dizendo frases do tipo: “se é para desligar o telefone, melhor não tê-lo”. Vejo as coisas de modo diferente e sinto que se não puder me desconectar daquele aparelhinho na hora em que julgar necessário não serei eu a lhe ter, mas ele a ter-me. E aperto o botão vermelho como quem pede descanso para a mente e não como quem detona a bomba atômica. Ainda acho não estar presente em todos os cantos o gesto mais normal e humano do mundo. Desculpem-me os dissonantes, é apenas uma filosofia que não há de servir tanto.

Ultimamente tenho tido poucas solidões, o que também é saudável para quem vive em sociedade. Gosto de aproveitar esses instantes ouvindo músicas antigas, fazendo poemas livremente à mesa da sala, almoçando quando a fome vier, criando ilusões, vestindo menos roupas e quase não me olhando no espelho. Espelhos, aliás, são objetos de preparar alguém para outro alguém – sempre os encarei assim. E na solidão mais vale o original do que o reflexo – nem todas as vezes correspondente fiel da matéria bruta.

Estar só faz bem, ser sozinho, porém, é melancólico e provavelmente paranóico. De uma forma ou de outra qualquer um precisa do outro para contar piadas gastas e arrancar um riso fácil, dormir despojado no sofá, comentar uma passagem na tevê, dizer como o dia foi igual, reclamar da vida, lamentar a morte, ajudar nas decisões, tirar o cisco do olho, dividir as dívidas, ajeitar o assanhado da sobrancelha que a rápida vistoria do espelho deixou escapar... E fazer segredos que não se pode botar em textos.

Imagem: Nuno Pedroso.

10 comentários:

Eraldo Paulino disse...

Quando a tecnologia deixa de ser solução e passa a ser vício, melhor desligar tudo, e viver o romantismo do rudimentar, pairando na suavidade do simples.

Bjs!

João Aranha disse...

Perfeito! Essa é a palavra! Primeira vez que passei aqui, vi no link de um amiga e gostei muito. Você pensa como eu. Confesso que, talvez, eu até prefira ficar sozinho mais que você, mas, independente da frequência, o motivo é o mesmo. Solidão é, antes de tudo, tempo pra gente se conhecer. Depois, refletimos, descansamos e tomamos decisões. Pra mim, a "solidão requisitada" só faz bem. Muito bom seu texto, muito bem escrito e muito bem pensado. Parabéns. Um beijo, João Aranha.

Richard disse...

Só consigo comentar uma coisa:

É o tipo de texto que eu gostaria de ter escrito.


Beijos!

Cayo Madson disse...

O se u texto Isolda, fala pelo que estou passando, muito obrigado por me ajudar a entender mais esse momento.

cayo madson

Deise Anne disse...

Adorei o texto, Isolda!
Concordo com tudo o que escreveu. Eu acho a solidão a melhor maneira de se encontrar.

Beijos,

Deise

Anônimo disse...

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monica mosqueira disse...

Muito bom!

monica mosqueira disse...

Lembrei duma música da Ana Canã..Procuro a solidão/como ar procura o chão/como a chuva só desmancha/pensmaento ssem razão.

Neto disse...

Olá Isolda!

Adorei seu texto. Me identifiquei tanto com ele (esse é o meu momento)que, se não se importa, gostaria de repúblicá-lo em meu blog - e outra vez, claro, lhe dando os devidos créditos. Posso fazê-lo?

Aguardo sua resposta. E aproveitei para avisar que linkei seu blog lá na minha casa.

Um abração!

Neto disse...

Ah! E aproveito para te convidar a escrever um texto para mim. Você aceita meu convite?

abraço