23 abril 2010

Ciúme: a antiquíssima prova de amor

Antigamente – e não tão antigamente assim – eu era jovem a ponto de acreditar no ciúme como prova de amor: uma visão simplória e ingênua do mundo complexo do relacionamento e da vida a dois. Envelheci pouco de lá até aqui, mas consegui abandonar certos preceitos juvenis que me induziam e/ou induziam o outro ao erro do sentimento de posse, que é doentio, e faz da pessoa amada um latifúndio, no sentido mais aristocrata da palavra.

Esse entendimento chegou depois que eliminei do meu dicionário amoroso a expressão “prova de amor” e decidi não validar sentimentos que exigem qualquer amostra, como o ciúme, que sobrevive da necessidade de mostrar-se. Ajudou o fato de eu ter uma forte tendência a não valorizar manifestações explícitas a respeito de amores, que de tão íntimos deveriam ser secretos. Ressaltem-se: buquês de rosas no horário do expediente ou da aula, carros de som com mensagens genéricas no meio da rua, camisetas estampando a foto do casal etc. Cada um tem sua maneira de vivenciar o amor ou o que chama de amor e respeito essa condição mesmo ela não fazendo parte do meu ideal de felicidade.

Falando rápido assim, em dois parágrafos, parece coisa fácil, mas foi difícil para mim, e deve ser complicado para qualquer um, aceitar que a falta do ciúme não tem relação alguma com o declínio do interesse pelo outro. As pessoas perguntam na rua: Fulano sente ciúmes de você?. E quando a resposta é negativa as desconfianças logo se levantam. Vejam que até terceiros querem provas de amor no relacionamento dos outros, como se amores fossem abertos à visitação pública irrestrita.

O ciúme – esse mau companheiro – diz das maiores falácias que se pode ouvir: a pessoa que você ama é sua (sua namorada, sua noiva, sua esposa, sua companheira...). E é preciso ser bem tolo para acreditar que isso existe. Eu já fui tola assim: confiscando números de telefone, vasculhando bolsos e e-mails, aprovando e desaprovando amizades da pessoa que me faz feliz, que me completa e compreende, que vive comigo, nem por isso é minha.

Imagem: Google Imagem.

7 comentários:

Rodrigo disse...

Adorei, Isolda! Muito legal. Já passei por isso. Lançando mão da psicanálise, diria que o ciúme é uma formação reativa. Gostaria que alguns ciumentos que conheço lessem esses texto.

Ludmila disse...

Acho que todos nós já passamos por isso... Muito bom seu texto!

Joselita Santos disse...

Amiga, já passei e ainda passo às vezes. Sou ciumenta confessa, de amores, de amigos, de mãe...coisa de filha única, insegurança pura...mas já consigo viver bem com isso, hoje é menos estressante.

Deise Anne disse...

eu não sou o tipo de pessoa ciumenta. é ruim desconfiar do outro e perder a liberdade, a gente fica sem poder respirar...
provas de amor não existem em uma fórmula, acho mesmo é que o tempo prova o amor. se for pra ficar, fica.

Rafael Belo disse...

Ah, a falácia da posse sodomita... Ops! ótimo Is! ... é como idealizar as coisas, programá-las para serem sentidas... "ideal de felicidade";;; beijos querida ótima semana

Eraldo Paulino disse...

Taí uma coisa que sempre acho que não sou e na prática acabo sendo mesmo.

Sabe aquela música do Ultraje? Parece que fui em que escreveru.

"Eu quero levar uma vida moderninha
Deixar minha menininha sair sozinha (...)
Mas eu me mordo de ciumes"

Eu parei de encanar com isso, na verdade. Sei que sentimento a gente não escolhe sentir. E enquanto eu for dono dos meus atos o bom senso prevalecer diante da loucura que muitas vezes o ciume provoca, acho que não estou mal não.

Bjs, Isolda! Fuerte como o sobrenome sugere!

Becca (Flor) disse...

Legal o post... Eu já passei por situações desagradáveis por conta das minhas desconfianças, mas aprendi muito com elas. Como vc passei a ter essa visão do ciúme e a exercitar isso num relacionamente, não ouso dizer estar tão bem resolvida como vc, mas, estou no caminho certo...Minha primeira vez aqui no teu blog, adorei!