12 outubro 2010

Falar das flores

Não é o primeiro dia das crianças que vou sentir nostalgia, acontece todos os anos comigo. Certamente porque, já disse a meio mundo, a infância é fase insuperável da minha vida. E falo com toda propriedade, ainda que seja uma adulta recém-chegada ao clã dos adultos, depois de uma curta e tumultuada adolescência, e mesmo sem avistar a tão tão distante sombra da velhice. “Nada do que eu viver de agora em diante vai superar as lembranças da minha meninice feliz”, repito feito um mantra de guri teimoso. Sou assim mesmo: pura teimosia. E isso não vem de hoje.

Infância é essa coisa que tem cheiros e gostos que não se pode esquecer. É querer que cheguem logo as férias para juntar os primos na casa da avó. É lamber a vasilha e a colher de pau que a mãe bateu o bolo. É apanhar junto com os irmãos porque o pai não quer saber quem começou a briga. É pular muro e roubar frutas do quintal do vizinho e, como se não bastasse, do vizinho do vizinho [e que o hábito se repita em algum cantinho bom do planeta]. É criar cachorro, gato, jabutis, passarinhos, peixes ornamentais, bode, galinha, (...), e não morar na zona rural. É querer morrer porque caiu o dente da frente.

Ser criança – como eu lembro bem... – é adoecer e ir à benzedeira. É tirar as medidas do vestido da primeira comunhão. É durante as missas de domingo ficar correndo na grama da praça e levar para casa um bocado de carrapicho na meia-calça. É apresentar o boletim no final do bimestre com o coraçãozinho na mão. É se apaixonar pelo professor de História na quinta série. Sim, as crianças também se apaixonam. Perdidamente. E como doem essas minipaixões. É querer ser criança para sempre e crescer rápido demais.

No fim das contas é até bom me refugiar um pouquinho na criança que fui e jamais voltarei a ser, sabe: para ter só um estado de espírito e rir com inocência, para precisar mentir um pouco menos e não ter tantos problemas, para estar com quem eu amo sempre por perto e fazer cara feia para o tédio. E ser completamente louco, completamente feliz. Mais louco é quem me diz!

*Fotografia tirada pelos meus pais no 'Saquinho', roça dos meus avós em Belém do São Francisco (PE), cidade natal deles. Cresci ouvindo histórias desse lugar, mas dele tenho pouquíssimas lembranças, algumas fotos.

6 comentários:

Clauderlan Vilela disse...

Belo texto, Isolda! Em mais uma espera que valeu a pena. Pois, com este olhar singular que você tem, a cada leitura me encontro com a mesma sensação, a de que é sempre gratificante passar por aqui.

Jamylle Bezerra disse...

Fiquei emocionada Isolda! Muito do que você relatou também faz parte da minha infância. E como eu tenho saudade de tudo isso!!!!

Sempre gostoso demais passar por aqui.

Beijos e saudades de vc!!!!

Elmar Herculano disse...

A fazenda que eu nasci
Tinha o nome de Saquim.
Guardo hoje no meu peito
Coisas boa e ruim
Do tempo em que lá vivia
Quando menino eu era
Sonhando com tanta coisa
Que a vida jamais me dera.

Por aqui meus companheiros
Termina a biografia
Do amigo de vocês
Que só come poesia,
Que ama a literatura,
Que a trouxe no seu berço
Só quero que fiquem certos
Que nesse molho de versos
Não rezei da missa um terço.

Isolda,

Realmente o Saquinho tem muita história; impossível de contar num miúdo feixe de verso.
Beijos, filhina!

Helena Frenzel disse...

Infância, coisa gostosa que não tem porquê passar... E de fato não passa: adulto 'seboso' jamais foi criança, pois quem foi um dia, jamais deixa de ser... Bela foto, belo texto, ternas lembranças! Gosto de ler ocê, Moça, digo: suas crônicas e memórias. Passei um bom tempo esperando (Eu e tempo)2 passar... Que bom que mudou! :-) Sucesso!

Deise Anne disse...

fiquei emocionada com seu texto, isolda.
me fez lembrar a minha infância, para mim um a fase tb insuperável até aqui.

parabéns pelo texto.

beijos

Eraldo Paulino disse...

Que coincidência. Munido do mesmo sentimento saudosista escrevi o meu próximo post programado para ir ao ar dia 20.

Como disse certa vez Casimiro, a infância realmente é a aurora da minha voda.

Bjs, querida. Lindo texto!