04 janeiro 2011

Histórias (de amor?) que ouço por aí

Sou de escutar muitas histórias. Sempre fui. Às vezes as pessoas precisam desabafar antes que aquilo, geralmente um problema, sufoque-lhes. Outras vezes quem tem algo a dizer sou eu, pois também tenho momentos de me sufocar, o que não vem ao caso agora. Dia desses uma amiga veio com uma repetida, de amores desgastados pelo tempo. Já ouvi muito sobre isso e já sofri com o sentimento. É ruim. É como um cadáver que não temos coragem de enterrar por apego ao corpo. Ainda que o corpo – meu deus! – esteja morto e, como qualquer corpo morto, logo venha a apodrecer, cheirar mal, atrair moscas e todo tipo de inseto. Disse mais ou menos essa metáfora para ela, que parece não ter querido entender o recado. Não é a única.

Para certos momentos da vida custamos e/ou nos recusamos mesmo a entender o recado que as situações mandam. Sim, porque um grande amor – um médio amor e até um pequeno amor – se destruindo faz barulho através de mensagens subliminares ou comportamentos explícitos. Querer ver e aceitar o que se está vendo é uma escolha pessoal: para o prolongamento do sofrimento ou o sepultamento daquele corpo que morreu. Morreu: jamais devemos esquecer. E sem ilusões de ressurreição. Por que outra mania que temos é acreditar que de um amor morto ressurgirá um novinho em folha. A isso deveríamos chamar “ilusão”, porém, por teimosia nomeamos “esperança”.

“Mas eu não consigo imaginar minha vida sem ele”, argumenta a amiga que já pensa em engravidar para tentar salvar o relacionamento. Mais uma vez não entende – não quer entender! – que filhos são agentes complicadores para qualquer relação que está prestes a se romper, não o contrário. Parir uma criança que, dentro da inocência de uma, nascerá com a missão hercúlea de salvar um casamento falido por si só chega a ser cruel, nada maternal. Digo isso a ela, que responde que sou insensível e nunca devo ter amado de verdade. E mais: que faria de um tudo para se manter com aquele homem que lhe atormenta com sua indiferença e desamor. Não é doentio? Pelo menos aparenta. Do meio para o fim da conversa ela nitidamente esquece o mote inicial da prosa: a relação morreu de desgaste.

Realmente fico sem ter o que dizer a amiga. Ela pede minha opinião, mas recusa meus argumentos. Diz que a convivência lhe aniquila como mulher e não consegue se desapegar do homem que escolheu para chamar de seu. Mesmo que ele nunca tenha sido dela, pois como diz a letra daquela música brega e os livros de auto-ajuda mais chulos: ninguém é de ninguém. Simples assim, e tão complicado.

Imagem: Google Imagens.

4 comentários:

Helena Frenzel disse...

Feliz Ano Novo, Isolda! É, muitos tendem a confundir amor com dependência... Um abraço fraterno :-)

O Divã Dellas disse...

Feliz 2011!
Cinderelas... falei sobre elas no Divã ainda ontem...
Um assunto sério.
Beijos e ótimo texto (como sempre).
Cinthya

Kometendo poesias disse...

PARECE QUE QUASE NINGUÉM COMPREENDE QUE O AMOR É UMA ETERNIDADE EFÊMERA.QUANDO SE VIVE O MOMENTO CRÍTICO PRECISAMOS ENTENDER QUE JÁ FOI.O PASSO SEGUINTE É TRAGAR O ÚLTIMO CIGARRO,BEBER A ÚLTIMA TAÇA DE DOR E PARTIR PRA VIDA,CERTAMENTE OUTROS AMORES ESTARÃO NA ESPREITA...BJOS AMIGA QUERIDA.

Clauderlan Vilela disse...

Belo texto, Isolda! Sua linguagem é de encantar os olhos, mesmo diante de um assunto sério e delicado como este. Onde ilusão e esperança se confundem e a razão nem sempre é entendida como razão.