09 fevereiro 2011

As coisas extraordinárias

Dias atrás estávamos meu namorado e eu de fronte para uma gangorra. É. Gangorra. Aquele brinquedo que sentam dois, um numa ponta e o outro na outra, para subir, descer, subir, descer (sua memória da infância deve guardar a lembrança de uma).

Como diz o matuto: não contei conversa. Chamei-o, sem timidez, para brincar. Ele não queria. Insisti. Ele disse que não fazia sentido algum: dois adultos naquela praça como se fossem duas crianças. Implorei. Ele cedeu. Mulheres têm seu jeitinho para todas as coisas. Se precisasse me descabelar, descabelaria. Não precisou.

Brincamos por alguns segundos. Eu mais do que ele – entretido em observar se o mundo nos observava; o mundo, parece-me, não parou para olhar. Eu só queria rir. Estar onde estava. Descer o mais baixo que pudesse, subir o mais alto e me imaginar chegando bem perto do céu. Revivi um pouco minha meninice. Foi bom. Seguramente o programa mais divertido da semana. Não trocaria o momento por nenhum outro que me oferecessem, tão extraordinário ele estava sendo para mim. E rezei para que não acabasse, mas não sou boa de reza.

Eu não sei do que estava rindo enquanto permanecia na gangorra, entre altos e baixos, como é a vida. Nada era engraçado, não dava cócegas; só que a vontade de rir era urgente e eu sorria como se tivesse que jogar minha alegria toda para fora naquele minuto. E ela deve ter ficado por ali, em algum canto daquela praça, no meu lado do assento, quem sabe. Para que o próximo a se sentar começasse a sorrir também sem saber por que, sem saber por quem.

Imagem: Google Imagens.

Poderá gostar também de: "O par imperfeito".

11 comentários:

Rafael Belo disse...

se equilibrar, subir, descer sem malícia, sem tempo, por que se importar com o mundo neste momento compartilhado?! Que beleza linda! Deu vontade de gangorrar rs beijos

O Divã Dellas disse...

Algumas pessoas simplesmente não sentem vergonha em dizer: "Sou feliz". E felicidade talvez não seja uma constante, e sim uma junção de retalhos... Retalhos como esses que vc bordou aí na praça. na gangorra, na meninice revivida.
Parabéns, Isolda!
Beijos,
Cinthya
http://odivaadellas.blogspot.com

marinajsh disse...

Ah! Isoldinha, só você mesmo prá ter esses repentes! Isso é sua cara, mas que dá inveja e vontade de fazer o mesmo, Ah! Isso dá! Bjs.

julio disse...

Eu tava olhando era se não esmagava a cabeça do nosso cachorro...o pobre não veio na gangorra. Ma no primeiro momento fiquei com vergonha sim, pois não estava esperando um convite tãp inusitado...

Estado de Ira disse...

Pena que as crianças de hj não se deliciam como a gente se deliciava naquelaépoca né?
Eu sempre que vejo brinco, assim como me balanço em qualquer balanço...

Elmar Herculano disse...

Meus olhos dão uma enchente,
Quando lembro como a gente
Era feliz na infância;
Brincando de criar boi;
Oh! Tempo bom que se foi!
Quero outra vez ser criança!

Vou poder nadar no rio;
Como menino vadio
Brincar no claro da lua
Me orgulhar de ser do mato;
Ser um matuto de fato,
Sem ter inveja da rua.

Beijos!

Já diz uma cantiga:

Rasque as coisas velhas da lembrança
Seja um pouco de criança
Faça tudo o que quiser...(Marcelo Barra, Naire e Tibério Gaspar)

Fabiana disse...

Que delícia de brincadeira Isolda, amo gangorra, onde foi que vc encontrou essa heim? rsrs. Antes de tudo temos que ser feliz, não importante os "olhares". Bjs

Ideia² disse...

Nossa vc escreve de uma forma muiito formal e ao mesmo tempo informal, não estranho apenas diferente, gostei.
Lindo o seu blog, muiito fofo *.*
Fik com DEUS
tô seguindo ;)seg a gente também! Se gostar!
Ah, amei o post PARABÉNS!
http://ideiaoquadrado.blogspot.com/
Bjuss
@IlmaraaRibeiro – Twitter

Ricardo Marcelino disse...

Olá Isolda, a um tempo venho acompanhando seus textos e já li quase todos do arquivo. Não é à toa que sempre volto para encontrar mais um... Há um relaxamento na mente de quem acompanha suas linhas e com as atribulações do mundo quem não quer relaxar um pouco?!

É a partir de expressões de pensamentos como as suas que faz sentido acreditar que nosso estado pode ser reconhecido, um dia, não pela pobreza e descaso de cada esquina, nem pelas imagens de políticos corruptos e espertalhões, mas por mentes ilustres que venham adicionar algo de bom a cultura do país.

Gosto da forma como escreve, da forma que vive (já que transmite aqui seu viver), da forma que descreve as mínimas percepções que a rotina oferece, mas poucos se dispõem a ver.

Grande abraço.

Helena Frenzel disse...

"Rir sem saber por que, sem saber pra quem..." Parabéns, Isolda, pelo sensível e inteligente olhar. A vida, ao que parece, segue o mesmo princípio da gangorra: importante é não perder a alegria de brincar. Um abraço fraterno!

TFNS disse...

Imaginei a cena e não precisei sentar por lá para ser contagiado por essa tal alegria