04 fevereiro 2011

A coleira

Alguém aqui deve saber que tenho um cachorro. Chama-se Salu, um vira-lata de um ano que amo como se fosse gente da melhor qualidade. Pois bem, todos os dias ele me espera (ou a meu namorido) para o passeio noturno que faz parte da rotina de nossa casa – mais do que lavar os pratos! Quando nos demoramos por algum motivo, Salu fica ansioso, aponta a coleira, chama a seu modo como quem diz: “ei, esqueceram de mim hoje, foi?”. No dia em que passear é inviável – se chove, por exemplo – o bichinho fica inconsolado. Só vendo.

Lógico ou insano, tenho o hábito de analisar o comportamento das pessoas pelo dos animais, porque existe muita gente que, igual a Salu, fica esperando a vida bater à porta lhe chamando para passear, como se a felicidade pudesse ser condicionada a um ato costumeiro. Não sei o que você sente em relação a isso, mas eu – que sempre persegui a independência e dou um jeito de viver a liberdade a todo custo (às vezes custa bem caro) – quando vejo alguém assim fico mortificada.

Essas pessoas também usam coleira, como os cachorros que passeiam contentes, abanando os rabinhos e fazendo festinha para os donos. Coleira para mim é a metáfora humana da dominação, da manipulação e da submissão – palavras que pesam até escritas. Sempre que o local permite eu solto Salu, para que entenda o que é a vida sem amarras. Seria traumático para mim se numa dessas meu bichinho fugisse para nunca mais voltar, mas sou capaz de me arriscar só para que ele viva uns momentos sem a minha mão como extensão do seu corpo – a lhe ditar a direção correta –, podando sua vontade de andar e correr livremente.

O mundo está cheio de homens e mulheres com a corda no pescoço. Observe seu bairro, sua cidade, seu ambiente de trabalho – não sem antes observar seu próprio lar, claro. E, se for o seu caso, arrisque um passeio sem coleira, com todos os riscos que isso pode significar. Não fique sofrendo por medo de sofrer. Nem deixe, jamais, que lhe impeçam de sair de casa porque está chovendo ou vai chover. Ou, o próximo passo pode ser dar a patinha, sentar, ficar e, por fim, fingir-se de morto.

Imagem: Google Imagens.

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6 comentários:

O Divã Dellas disse...

Isolda,
Que belo texto!
Eu me livrei de uma coleira ano passado. Era coleira de ouro, é certo, mas era coleira. Paguei o preço. mas estou livre, não na medida que almejo, mas foi o começo de um processo.
Eu posso ter medo de muita coisa, mas medo da felicidade? Nunca!
Beijos,
Cinthya

julio onofre disse...

Já eu fico com taquicardia, dispneia e tenso quando você voc~e solta o nosso pet...
bjos

Anônimo disse...

Hahahah, comentário ótimo do Júlio. Bem, é necessário se livrar das amarras que nós mesmos nos prendemos. Precisamos voar feito os pássaros, seguir em frente, procurar crescer...,enfim. Ser livre.

Att, Deisy Nascimento.

Neto disse...

As pessoas sofrem bem mais quando tem internamente (ou sentem) o "medo de sofrer".

É preciso arriscar, ousar...a vida é feita de ousadia e iniciativas. O sucesso pessoal de cada um (ou cada uma) depende disso.

Abraços :-)

Estado de Ira disse...

Put's, muito bom! Concordo em gênero, nº e grau.
Parabéns Isolda...
Espero vê-la no meu! :D

Rafael Belo disse...

'Coleira para mim é a metáfora humana da dominação, da manipulação e da submissão' ótimo linda! Às vezes já começam fingindo de morto, truque fácil e sujo contra si mesmo! O pior que muitos tem uma coleção de coleiras de todos os tipos cores e nacionalidades! Belo texto! saudades beijos