28 abril 2011

Coisinhas bobas

Eu ouvi a vida inteira que andar de pés descalços faz mal. O conselho ou norma nunca fez efeito sobre mim. Sempre amei andar pisando literalmente no chão – mesmo quando me mantinha com a cabeça nas nuvens. Uma forma de me sentir mais livre, talvez. Que neste mundo presidiário, qualquer chancezinha assim de estar leve e solto já faz uma diferença danada.

Minha avó e minhas tias também diziam e repetiam que dormir de cabelo molhado era quase o oitavo pecado capital. Que aquilo poderia me causar todos os males da humanidade etc. coisa e tal. Estou exagerando um pouco, claro. Mas juro que era mais ou menos isso. De toda forma eu também não podia abdicar daquilo: chegar cansada, ou estressada, ou chateada, e me jogar debaixo do chuveiro. Uma necessidade real, que fique entendido. Não era pirraça – como elas julgavam.

Chinelo virado a mãe não morre, porém, todo mundo já deve ter escutado o contrário. Não sei de onde vêm esses ditos/crendices populares e, hoje, relembrando alguns deles tive de ter saudade de uma infância, uma adolescência, que passaram tão rapidamente por mim. Por pouco não perco o bonde de várias e várias histórias. Como aquela que dizia minha vizinha: comer e cantar ao mesmo tempo é agourar a madrinha. Para mim era só falta de educação.

Essas coisinhas bobas (nem parece, mas) dão contorno às personalidades. Escrevo isso à notinha, com o prato feito ao lado do computador, cabelo molhado, pés descalços, no escuro. E sentindo uma falta danada de tudo, da inocência do mundo.

Imagem: Google Imagens.

10 comentários:

O Divã Dellas disse...

Também não pode deixar uma cabeleireira que esteja menstruada cortar o seu cabelo, caso contrário, seu cabelo fica ruim (putz!). Ainda hoje minha mãe defende essa tese.

Então seiria mais ou menos assim: Entro no salão e digo "Boa Tarde. Quanto custa o corte de cabelo?" e ela responde "Trinta reais" e eu "Ok. Mas a senhora não está mesntruada, está?"

Ai ai!!!

Beijão.

Cinthya
http://odivaadellas.blogspot.com

Ricardo Marcelino disse...

É surpreendente como tudo que passou parece tão bonito quando olhamos para trás. Vida de moleque, de rapaz (e femininos), os amigos, os irmãos, os pais. É quando bate aquela nostalgia que de tempos em tempos nos visita. É quando choramos por tristezas que não mais atormentam só para sentir do momento um pouco mais. É quando nos desleixamos do presente para voltar no passado, mergulhar no escuro, deixar o cabelo molhado... Mas de tanto voltar o corpo ainda continua presente, ao contrário da mente, quer descançar. No dia seguinte não há nostalgia, o cabelo está seco e não se encontra interruptor que apague a luz do sol. Levantamos e seguimos sem perceber que por mais feliz que o passado pareça, o hoje será 'gravado em nossas cabeças' para ser a memória do passado de amanhã.

Fiz como comentário aqui, mas me serve de texto também, vou postar!

Abraço.

Rafael Belo disse...

Da falta da nossa contrariedade inocente, do nosso sentimento livre de tudo... Amo andar descalço é uma conexão única... Que ótim otexto, muito gostoso querida! Saudades suas beijos ótimo fim de semana

mjsh disse...

Lendo seu texto percebo o quanto não vivi esses momentos presa a regras e etiquetas do bom comportamento, criando conceitos que na verdade nem sei se vale a pena. Por exemplo, não consigo colocar os pés descalço no chão nem para tomar banho, não consigo comer pipoca, milho assado, na rua porque as mãos estão sujas apesar de adorar pipocas, de desejar loucamente ao sentir o cheiro. Às vezes as contra-regras fazem as pessoas felizes mais do que as regras, pois inspiram liberdade, o direito de fazer o que quer, “o que dá na telha”.
Adoro ler seus textos, são escritos de forma tal que concretiza pensamentos, me trazem lembranças fortes da infância, me faz refletir sobre como é importante valorizarmos as pequenas coisas.
Um beijão!

monica mosqueira disse...

Andar descalço é TUDO!
[Até mesmo se queimar por isso ao andar no asfalto duma cidade que não se conhece e volatr com o pé preto/molhar o pé na volta na piscina e sair fumacinha do pe]

Meu cabelo quando dorme molhado amanhece com cachinhos super legais (rs)

Rivison disse...

Texto simples, bem escrito e (muito) saudoso. Acho que essas "crendices" fizeram parte da vida de boa parte das pessoas da nossa geração em algum momento...

Ricardo Marcelino disse...

O que será das próximas gerações sem essas crendices já que não as passamos adiante?

Isolda Herculano disse...

Pessoal.

Amo as histórias que vocês me dão de volta toda vez que eu ofereço um pedacinho da minha. Obrigada mesmo pela colaboração aqui.

Beijos a todos.

Marise Bender disse...

Isolda querida.

Acho que finalmente vou aprendendo a postar os comentários. Coisas minhas, certamente, que no desejo de tornar-me seguidora de seu blog, quase entro a seguir o meu. (rsrsrs)Eta habilidade!!!

Dessas crendices que povoaram sua infância, muitas foram vividas por mim.

Tal como você sempre gostei de ter os pés no chão (ainda que, como disse, minha cabeça pudesse estar nas nuvens - ou quem sabe em outro planeta). Gosto da terra, da areia, da pedra, de sentir o calor do terreno onde piso e dessa sensação de liberdade e irreverência que nos dá a magia dos pés sem calçados.

Compartilhando com você uma história, meus pés não tinham aquela "curvinha" que todo pé deve ter, logo, para desespero de minhas avós, um médico aconselhou-me a andar descalça. Imagina minha felicidade com essa "receita" liberadora? A menor reclamação, lascava um : o médico falou pra andar assim! Elas iam fazer o quê? (rs)

Um grande beijo, menina.
Já gosto imensamente de você.

Nine disse...

Olá...
Nem fale, que ultimamente tenho andado na iminência de nostalgias, como se fosse a pessoa mais velha do universo...
Parece que faz tanto tempo, que toda essa leveza era fato, e que se eu tirasse das costas a mochila, e soltasse as tranças, voaria até a estratosfera, e ganharia de presente, todas as constelações...
Hoje, cada vez mais nos percebemos enclausurados num corpo finito e estático, anexando modinhas, e cumprindo, conformados, todas as sentenças que nos impõem...

=(