05 junho 2011

Sentimental

De vez em quando sinto que sou a pessoa mais frustrada do mundo por não ser mãe. Prestes a comemorar um novo aniversário, costumo pensar nisso de forma melancólica e quase sempre trágica. Aos pés dos 27 anos, por exemplo, já devo ter bolado as teorias mais pessimistas do universo a respeito: sou infértil, vou morrer sem ter tido filhos, meu namorido vai morrer sem ser pai, um câncer (ou a quimioterapia) vai adiar por mais anos ainda a realização deste sonho de infância. É, de infância. Desde muito cedo desejo com toda a força do mundo chegar a esse momento, mas...

Botando a realização na ponta do lápis, meu racional entende que ainda não é hora de fazer herdeiros – neste momento, eles sequer teriam o que herdar, coitados. Agora, vai explicar isso ao meu emocional e ao meu corpo... Os dois vivem dizendo que me encontro em idade fértil, apresento condições físicas ideais, tenho parceiro fixo e confiável, estou viva! Observações que me deixam bem mal, apesar de serem tão positivas.

As pessoas ao meu redor percebem essa vontade encubada, perguntam sobre gravidez. Respondo com sinceridade. Elas olham para os meus bichos de estimação e veem uma imensa carência na forma como eu os crio, um buraco. E estão certas. Apesar de amar animais, uso-os, ao mesmo tempo, como escape. Para acreditar que posso cuidar bem de alguém, dar amor, carinho, disciplina, atenção, alimentação adequada. É claro que sei: bebês não são cães e gatos! Nem me meto a comparar.

Também já chorei incontáveis vezes pela convicção que vou ser mãe “tarde”. A atitude é meio maluca, porém, esses sentimentos vivem em mim querendo que eu me desespere logo e, às vezes, fugir deles não é simples assim. Então, para me enganar, decido não ter filhos, não colocar mais uma criatura neste mundo louco (e procuro outras desculpas para não emprenhar). Mas é tudo tão frágil, tão doentio, tão mentiroso, que não me convence. E enquanto o tempo continua a passar fico imaginando se no meu apartamento cabe um filhote de hipopótamo ou de elefante. E o que eles comem.

Imagem: Google Imagens.

10 comentários:

Marise Bender disse...

Terceira tentativa de comentar. Afinal não sei para que galáxia foram remetidos os comentários que teci com tanta emoção.

Corajosa a sua maneira de falar tão francamente de um assunto tão seu. O bom de seus textos é que a gente encontra bem aqui, refletido no meio da telinha, um pedacinho da história da gente.

Ah, sim! Antes de ser mãe fiz mil e uma teorias sobre a impossibilidade de ter filhos. Felizmente, todas falsas. Ah! Como gostamos de nos apavorar...

Chega uma hora, perece-me, que todos os órgãos e todos os hormônios do corpo da gente fazem coro gritando a maternidade.

A maternidade sempre foi um desejo e quando veio foi e tem sido um grande presente.

Parabéns pelo texto e pela coragem.

Beijos petropolitanos.

amigoZen disse...

Já foi o tempo em que a mulher colocava o plano de ser mãe como prioridade na sua vida, independente da idade. Além da mudança desses conceitos, acredito que nosso destino está traçado e um filho pode não fazer parte de sua história. Acredite que a sua felicidade não precisa e nem deve ser condicionada a isso, pois o amor pode ser exercitado e dissipado por todos nós de diversas formas, sem traumas ou frustraçoes.Você pode ser muito feliz, só sendo uma grande amiga, esposa/mulher, tia, filha, enfim, feliz independente da geração de um novo ser, ou até mesmo fazendo uma adoção. Espero que Deus acalme seu coração. Um grande abraço.

Helena Frenzel disse...

Oi, Isolda, penso que há uma enorme diferença entre querer ter flihos 'podendo' e querer 'não podendo' ter. Estou à beira dos 38 e esperando meu primeiro filho, sem neuras, pois encontrei minha cara-metade depois dos 30 e só agora conseguimos engravidar. Fico feliz que nosso BB seja fruto de um grande desejo e está sendo aguardado com muito amor. Nem toda mulher tem vocação para ser mãe e, nestes casos, se ela puder engravidar, melhor mesmo é evitar. Mas isto, só ela mesma pra decidir, ninguém mais. Quando eu era mais jovem, ainda sem uma profissão definida ou um parceiro de verdade do lado, alguém com quem pudesse contar, também pensava e dizia que não queria ter filhos, pois mãe solteira não queria ser (Cresci sem pai e senti muita falta). Quando quis ter, descobri que não seria tão fácil engravidar. Pois bem, tudo tem seu tempo. Importante é tapar os ouvidos às opiniões alheias e deixar o corpo e o instinto nos levarem, se assim quisermos, claro. Corajoso este texto. Reluto em falar tão abertamente sobre mim, ainda mais num ambiente aberto, mas trocar experiências por vezes é muito gratificante. Deixe rolar. Um abraço fraterno!

moreyra da silva disse...

Moreyra da Silva: Texto forte e corajoso, parabéns.

Julia A. disse...

Adorei!

O Divã Dellas disse...

Isolda, vc se supera! Isso é ótimo!
Olha, eu desde muito cedo sonhei em ser mãe, desde muito cedo mesmo. Eu não sonhava com marido, casa... mas sonhava com o meu filho.
O Pedro chegou quando eu teinha 31 anos e veio na hora certa, me encontrou com a maturidade certa. A minha prima foi mãe aos 40 e o Emanuel chegou na hora certa pra ela, nas condições certas. Então, é tudo muito relativo. E o que percebo é que se você analisar demais, pensar demais, você nunca terá coragem de ser mãe. Mas... Não pense muito, porque não existe nada mais lindo nesse mundo. O seu rebento vai chegar sim. Quando você mesnos esperar a moça estará espetando teu braço pra colher teu sangue e horas depois você estará olhando para aquele envelope que tem o seu futuro lá dentro. Pernas bambas, borboletas no estômago... Positivo!... Eu grite dentro do hospital: EU VOU SER MÃE! Rsrsrs... Não pensei em mais nada, enfim. Lo, logo vou ler emocionada o seu post contando essa novidade.
Beijos,
Cinthya
http://odivaadellas.blogspot.com
PS: e darei os parabéns ao Vovô Elmar, claro!

marinajsh disse...

Olá! Isolda,
Seus textos como sempre tão próximo de nós.
Tenho convicção de que nem sempre o que desejamos é para nossa felicidade. É preciso sonhar, desejar e realizar, mas nem sempre nossos sonhos se realizam, nem por isso seremos menos felizes, sempre virá algo para preencher o espaço vazio e tudo se encaixará. Devemos fazer por onde as coisas aconteçam e confiante em Deus o melhor virá. Você é uma lutadora e com esta disposição que tem Deus não deixará, não perderá a chance de enviar um filho para você cuidar. O mundo precisa de “Mães” amorosas com vontade de se dedicar a um filho, orientar e/ou transformá-lo.

Eraldo Paulino disse...

Pode não parecer a mesma coisa, mas, eu que sou pai sei muito bem o que queres dizer.

Querida, gostaria de bancar o atrevido informar que meu blog encontra-se em manutenção até segunda feira, 20/06, às19h.

Inclusive, gostaria de te convidar pra me visitar a partir desse dia, pra celebrar comigo os 02 anos do paulinisses.

Nesse período, nem você nem eu jamais pedimos visita um ao outro. Mas, especialmente nesse período, gostaria que me visitasse, caso seja possível.

Você faz parte das paulinisses.

Bjs!

Metamorfose Ambulante disse...

A decisão de ter filhos é ao mesmo tempo simples e complexa. Simples porque de simples implantação, bastando arranjar duas pessoas férteis de sexos diferentes e deixar a natureza agir. Complexa se formos ponderar as condições necessárias para ter filhos e criá-los condignamente, sem abrir mão das nossas próprias vidas, etc. Como ponderar e conciliar todas as demandas materiais, emocionais, sociais,etc. envolvidas na questão?

No meu caso, a questão foi resolvida aplicando-se os dois métodos: depois de cinco anos de casados, sempre desejando-se ter filhos mas sem concluir os "estudos" sobre o tema, minha mulher sentiu-se pressionada pela natureza (mais de 30 anos) e declarou que ou teria filho já ou não mais os queria. Deixamos a natureza agir.

Katiuscia disse...

Como algumas das suas leitoras, também fui mãe tarde, aos 30. Tinha a mesma preocupação que vc, se iria casar, se poderia ter filhos. Acho que isso é coisa de mulher, sei lá. Como agora tenho experiência pra falar sobre o assunto, te digo: esperar é uma ótima idéia... não para quando estiver preparada, pois isso nunca estamos, mas esperar o momento em que vc vai ter tempo pra se dedicar ao bebê. Ele exige MUITO dos pais nos primeiros meses de vida. Não é fácil. NÃO É MEEEEESMO. Mas é gratificante ver o sorriso de seu filho, depois de um dia exaustivo. Espere. Para ter aos 30, 35,40. Sem neura. Tudo vai dar certo!