16 agosto 2011

Dindos e dindas

Parece que foi ontem o meu batismo e agora sou convidada para batizar o filho dos outros. É uma lisonja. Daquelas. No meu tempo de criança, pelo menos, era. Os pais escolhiam por padrinho, madrinha, pessoas cuja confiança fosse tanta que, no caso da falta dos dois, aqueles tomariam para si a responsabilidade de criar o afilhado. E criar gente é uma trabalheira danada. Não é como criar bicho nem regar planta.

Hoje não sei como estão essas questões. Meu pai contava histórias – lá em Belém do São Francisco, morreu um casal tal e os filhos foram “distribuídos” aos seus padrinhos. Eu achava engraçado o relato sem me dar conta de que era trágico. Também pensava que ele estava mentindo ou inventando conversa só para que eu aprendesse, com o exemplo, a respeitar essas figuras quase mitológicas. Mas parece que era tudo verdade.

Minha madrinha não conheci. Vi algumas vezes, a lembrança não guardou. Mudei de cidade e pouco antes de ela morrer pude visitá-la em sua casa, bem velhinha. Foi meio constrangedor porque parece que madrinha é alguém que a gente tem que adorar e, pela falta de convivência, não senti nada por ela. Existe uma fotografia desse dia. Meu sorriso amarelo fala muito.

Com meu padrinho foi diferente. Convivi, amei, ri das piadas que contou a vida inteira, como se a vida jamais fosse perder a graça. Quando teve que ir embora nem pude acreditar: um desperdício! Tanta gente que não valia nada perambulando por aí e ele partindo para nunca mais – quem sabe. Acho que fiz essa crítica a Deus, que entendeu o desabafo e desconsiderou o pecado. Sinto saudade dele, de ouvir os outros o chamarem pelo apelido. E o tempo continua a correr, sem velocímetro.

Imagem: Google Imagens.

5 comentários:

Richard disse...

Belo depoimento!

Realmente, Isolda... eu sinto falta da convivência com os meus, mas tenho várias madrinhas e amo todas, comparando-as com minhas avós.

Abs!

Kleverton Journaux disse...

Ai, Isolda. Nunca mais vi a minha. Gosto tano dela. Mas ela não se encontra na internet. Meu problema é falta de tempo. No Facebook e nas redes sociais até me aproximo mais dos queridos. Tenho que tirar um dia para vê-la e. Ah, parabéns pelo convite, mas um desse eu não quero nunca rsrsrs.

Dan disse...

Oi,prima!!!meu pai ficaria muito orgulhoso dessa postagem...Realmente ele faz falta pra todos.Obrigado.bjão

marinajsh disse...

Olá Isoldinha!
Como me faz bem ler textos familiares, estas lembranças valorizam o respeito que devemos ter uns pelos outros. Essas considerações que nos foram ensinadas,” aparentemente forçada”, pois quando somos jovens, adolescentes ou ainda crianças, achamos tudo isso muito chato, um mico - aquela coisa “toma bença menino é sua madrinha... é sua tia, etc.” nos deixava envergonhados que muitas vezes nos distanciava das pessoas, acabávamos até fugindo do encontro, mas hoje podemos nos dá conta do quanto esses relacionamentos são importantes, nos traz um afeto, um carinho, aquele abraço carinhoso dos que realmente nos querem bem é muito bom.

Rafael Belo disse...

Tenho saudade da minha. Quando era pequeno ele me visitava direto, mas lá pelos 11 anos perdi contato fui tê-lo noivamente dia desses ainda lá em Ribeirão Preto e depois não mais... Não pretendo sumir da mesma forma da vida do meu afilhado :D, mesmo porque minha cumadre não deixaria. Dindos e dindas são realmente quase mitológicos >D belo texto IS, cada vez mais gostosos de ler. beijos ótimo fim de semana