07 novembro 2011

Um lugar no mundo


A maioria das pessoas acaba desenvolvendo uma relação afetuosa quase inexplicável com o lugar onde nasceu ou foi criada. É natural. Ali moram as lembranças da infância feliz, das primeiras experiências, decepções – afinal nem tudo é bom ou ruim, mas as coisas todas, em algum momento, parecem ser únicas.

Como morei na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba e em Alagoas, costumo dizer que minhas raízes são longas demais. De modo que não me atenho a somente um espaço geográfico nem me sinto cria de um lugar apenas. Parece que sou pedaços de mundo e filha de todos os pais que me acolhem. Nada como falta de referência, é que me apoio em mais de um ponto referencial; o que considero sadio, mas não são todos os que compreendem.

De cada local desse eu guardo um sabor, um cheiro, uma visão inesquecível. As lembranças brincam com os meus sentidos. A comida da avó que restaurante nenhum imita. A casa da Vila São Jerônimo. A primeira noite dormida fora do lar. O desprezo dos maiorais. A peça de teatro. As poesias. O vestibular vencido. A faculdade. A independência financeira. A dependência. O amor em seus diversos capítulos. Vivi pouco, o que não justifica essa sensação de já ter vivido tudo ou quase tudo.

Hoje eu sei que a comida da minha vó não era a melhor de todas. Que mudei depois para uma casa mais valorosa do que a primeira. Que sofri durante outras noites sozinha. Que nenhum desprezo jamais me feriu de morte. Que fui má atriz, má poetiza. Que poderia ter escolhido outra profissão ou tentado a felicidade não-acadêmica. E o amor não é um livro. Mas essas informações racionais não valem muita coisa para mim, que, de vez em quando, ainda sinto vontade de voltar ao lugar onde cresci só para sentir o mesmo vento a bater no meu, agora, cansado rosto.

Imagem: Google Imagens.

3 comentários:

Richard disse...

Eu também penso assim, mas nunca me mudei de casa, mas o resto, é assim mesmo.

Você me emociona com suas belas palavras, Isolda!

Rafael Belo disse...

Eu penso, eu questiono, eu sinto, eu vivi assim também, Is! Raízes alongadas ao não me ater pelo BrasIL afora menos no nordeste, infelizmente. Sou filho do mundo e de diversas sensações da rede de lembranças! Mas a comdia da minha avó continua única, rs a da minha mãe e da minha irmã mais velha emparelham rs Belíssimo texto linda! Saudades boa semana.

Bruna disse...

Isolda, também fui apresentada ao seu blog pela Camila. Confesso que me identifiquei muito com seus textos, com a forma como as palavras fluem tão naturalmente. Obrigada pelo incentivo, e espero que continue sempre postando esses pensamentos leves, que tornam o nosso dia mais agradável.
Um abraço
Bruna.