31 maio 2012

A vizinhança novelesca


Eu sei o que vocês estão pensando. Que depois que me descobri grávida deixei que as aventuras pré-maternidade me tomassem todo o tempo e disposição possíveis e que meu desejo mais urgente agora é deixar esse blog aqui encalhado como está. Não estão errados. Mas devo ser tão turrona que vou até contra minhas vontades.
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Vizinhança quando marca é por ser muito ruim ou muito boa. E para que se possa fazer a avaliação é preciso que ela se mostre: dor ou delícia. Venho do interior, de onde vizinhos trocam uma intimidade descomunal. Não é como nos filmes, em que você bate à porta para pedir uma xícara de açúcar e vem um bonitão atender. Nada disso. Vizinho de cidade pequena entra sem hora marcada, aparta briga de marido e mulher, toma conta da criança dos outros, pega roupa emprestada, até que um dia "se intriga” e um não pisa mais na calçada do outro.

Nas médias e grandes cidades é quase sempre diferente. É certo que o estilo vivo-em-apartamento impõe uma proximidade, que nem sempre é nociva. Sim, há gente boa do outro lado da parede, porém, como uma loteria. Vai arriscar suas fichas? Eu prefiro não arriscar as minhas. Não é maldade nem nada. É que chego em casa nos cascos pelo trabalho ou pelo trânsito ou pela vida (...) e o que chamo residência hoje é quase um santuário de recolhimento. Embora isso não me isente de um relacionamento qualquer com meus vizinhos.

Acontece que não dá para desconsiderar que batem corações ao lado, em baixo ou em cima de onde se está. Sempre há um bom dia, uma boa tarde, uma boa noite para dar no cruzamento; uma música alta, um salto alto, uma briga alta para desconcentrar. Essas coisas. Tive durante um ano um casal jovem de vizinhos que vivia às turras. Depois apareceu um recém-nascido no meio da história. Quando discutiam, ela jogava na cara dele que quem pagava a despesa dos dois era a mãe, e o marido saía para espantar a raiva, com o filhinho no colo. Ficava ali com o gurizinho, sentado na calçada do outro lado da rua, comendo a poeira dos carros que passavam. Era quase uma novela viciante. E, ufa, eles se mudaram!

Minha nova vizinha é uma senhora. Não sei o seu nome e ela não sabe que escrevo blogs. Ela tem uma filha que mora perto e um netinho que a visitam algumas vezes por semana. Depois o genro passa no começo da noite para buscar. Nunca entra. O som das conversas na casa dela sobe pela área de serviço até a janela do meu quarto. Os sons da minha casa, claro, fazem o caminho inverso. Ela gosta de escutar pagode quando faxina a casa; não esses atuais, são do tipo “Inara, Inara, Inara, Inaraí...”. Antes eu achava que era a faxineira, mas já descobri que é ela mesma. E ela, o que saberá de mim? Em qual capítulo estará da minha novela? É estranho pensar que nem sempre eu sou o lado que observa.

2 comentários:

Sumaia Villela disse...

Através das paredes e janelas dos apartamentos vizinhos ou pelo blog, ser observada é parte da sua vida. Somos todos voyers, não é mesmo? Lindo texto, Isolda.

Anônimo disse...

Isolda, estive com seus pais, dia 18/05, em Petrolina (I CLISERTÃO), e ontem, aqui em Tabira, só com Elmar, comendo um taco de bode assado. Eles já são dois vovôs-curujas... Seja muito feliz!

Pelo que pude sentir,
Você é feita de fé:
Não para nem pra parir...

Abraço do Pajeú