06 dezembro 2012

Morrer aos 104*

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Morrer aos 104 não era para ser motivo de tristeza nem para o morto – e a morte não tem culpa de, em si, parecer triste. Aliás, a expressão original deveria ser “viveu 104 anos”. Só assim restaria a sensação de que, pelo menos dessa vez, quem venceu foi a vida. Mas, é a morte, enfim, que iguala os vivos, diriam os puristas. Está bem. Morreu. Porém, aos 104, e isso faz uma diferença dos diabos.

Alongar tanto uma vida sofrida seria judiação. Viver 104 de forma digna, entretanto, sorrindo e arrancando alguns sorrisos pode não ser nada mal, hein? Aos 104, o sujeito tem licença para achar que ainda é cedo para partir. Duvida que centenários desejem viver mais? Duvidar é bom, desde que a dúvida nos leve a algum lugar, nos tire da inércia.  

Se todos chegassem aos cento e tantos anos, seria um caos para o INSS; para os jovens eternos do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, que não dão a mínima para políticas de acessibilidade; para o empresariado que repudia a meia-entrada da terceira idade (seria quarta idade?), o passe-livre nos ônibus etc. Tudo precisaria ser refeito, repensado. Será que o mundo aprenderia a ser melhor, estendendo tanto a expectativa de vida? Vamos duvidar dessa também.

O mundo é ruim para os velhos. Que dirá para os muito velhos? Por isso, viver 104 anos é, ainda hoje, no mínimo, revolucionário.  

* Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares (Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1907 — Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2012).

2 comentários:

Rafael Belo disse...

O segredo é sempre planejar e continuar sonhando. É uma vida incrível vivida por niemeyer! Ótimo texto saudosa Is! Bj e ótimo fim de semana!

Helena Frenzel disse...

"Who wants to live forever?" Ter projetos é sempre bom, ajuda a distrair do efeito do tempo e a gente até esquece que está vivendo, a vida flui. E por falar em tempo, há tempos eu venho aqui mas só hoje consegui deixar um comentário. Agora que você também é mãe (e se cuida sozinha do seu bebê, pelo menos a maior parte do tempo, digo: se não tem babá ou alguém mais para ajudar) acho que já descobriu que tempo ganha outro significado após a maternidade, e enquanto os filhos são muito pequenos, todo o resto tem que ficar para depois, até as mães, mesmo sob protesto. Pois bem: parabéns pelo bebê, Boas Festas a você e sua família e, tendo um tempo, passe lá no Bluemaedel e leia o post sobre Dardos (em Dezembro de 2012). É que cito o seu blog. Feliz 2013 e no próximo Natal, quando seu bebê já estiver mais crescidinho e entendendo mais as coisas, será bem mais especial; pelo menos é isso o que estou vivendo no momento e é muito bom. Um abraço fraterno, até!