29 abril 2014

A vida de quem não nos interessa

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Foi essa semana, sentei no ônibus ao lado de uma jovem nos seus 19, 20 anos, não mais. Quando entrei no coletivo, ela já estava lá, falando pelos cotovelos, ao telefone. Paguei a passagem e apesar do falatório, fiquei por ali, na última cadeira à sombra, uma oferta ruim de rejeitar. O tipo da situação em que não se pode optar por não ouvir a conversa alheia, ao menos que se tenha um fone de ouvido e eu não tinha.

A viagem durou entre 10 e 15 minutos, e sei fatos da vida daquela moça que são dignos de uma melhor amiga. Não apenas eu. A senhora da frente, as de trás, os rapazes do lado, o motorista e a cobradora, pelo menos. Todos nós sabemos que ela tem uma filha na faixa de um ano, é mulher de um presidiário, o pai da garotinha. A visita na penitenciária é todos os domingos para a família, quando se pode lavar uma refeição, refrigerante, coisa pouca. Às vezes vai com a garotinha, às vezes não. A feira completa é entregue à parte, a cada quinze dias. 

Ela se diz feliz, tem um homem que é só seu e nunca precisou tomar o marido das outras, como fez a mãe, destruindo uma família. Contava isso tudo à tia que, do outro lado da linha, ouvia com paciência, mas quase não opinava por pura falta de espaço. Confessou também que anda sem dinheiro, deve muito e não tem como pagar. Depois que o companheiro foi preso, teve que sair do “babado” e agora trabalha um turno todo dia.

Eu não sei ao que ela referia, exatamente, quando usou a expressão “babado”, embora tenha imaginação suficiente para arriscar. Olhei de rabo de olho, era uma pessoa de palavras ferozes, sangue nos olhos, porém, de traços suaves, magrinha, cabelo escorrendo no rosto, a boa aparência que os processos de seleção de emprego pedem, levava uma pastinha vermelha. Não daria para imaginar, não fosse a conversa ao celular, que aquela quase-menina carregava um passado de uma tonelada nas costas. Ou desvendar o peso do seu presente, futuro. E sabe qual é a ocupação dela todos os dias por um turno? Babá. Eu não disse babado, eu disse babá. 

3 comentários:

Yvette Maria Moura. disse...

Adorei, Isolda.
Um excelente texto para acompanhar o meu cappuccino nesta tarde fria. E, claro, dar uma sonora gargalhada. Alias, os coletivos são excelentes meios para nos inspirar textos engraçados e criativos.
Um beijão.

Rafael Belo disse...

adoro causos do busão rs tinha uma coluna chamada psicologia de ônibus rs acho que já te disse. Muito bom Is, a única coisa que me dá vontade de voltar a usar ônibus histórias rs bjs

Helena Frenzel disse...

Não é o que eu digo: o excesso de exposição sempre acaba revelando algo importante... A Dama do Lotação... A Babá do Lotação! ;-)