17 maio 2014

Não subestime uma mulher

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Sexta-feira. Estava eu esperando a triagem no banco de sangue quando vi essa senhora que mais tarde me disse ter 42 anos. Suspeito que fosse mais. As linhas de expressão diriam 50, pelo menos. Entregou o jogo sua insistência em repetir tantas vezes a idade. Foi uma dessas conversas que não dá para saber exatamente como começou e se estendeu sem controle. Falamos sobre tudo e sobre morte. Falar sobre morte é como uma licença poética, podemos sentir e criar à vontade. 

Na verdade, ela falou mais do que eu, que tenho menos experiências mortais – nunca vi a morte assim de perto. Enquanto íamos e vínhamos no assunto, a senhora me chamou atenção para a maneira como encaramos a finitude. Completamente diferente depois da solidificação do capitalismo. Recebi a referência com surpresa, diante da figura que não parecia ser a última socialista do século. Delatavam-na os colares de ouro e pérola, as pulseiras, os anéis, o escapulário e mil penduricalhos, cabelo e unhas de salão de beleza. 

O capitalismo criou a “instituição morte” nas palavras dela. E tenho que admitir que ela dizia coisas bonitas e conexas, embora duras. De modo que quem morre – continuou –não é mais uma pessoa nossa, querida; também nos acostumamos a tratar o outro como paciente. É claro que quase todos diremos agora: que horror, ai, que mulher exagerada! Ela seguiu. Os hospitais privados – alguns com patente de hotel de luxo – cumprem o papel de parecer o melhor lugar para morrer. Depositamos nossos entes amados para serem não apenas tratados, queremos que fiquem lá mantidos em máquinas e remédios até não poderem mais. Para que morrer em casa? É incômodo. Para que velar em casa? É cafona. A morte burocrática resolvemos no escritório – encerrou. 

Diante do que escrevo questiono a mim mesma se aquela mulher existe ou se foi alucinação. Esqueci de perguntar seu nome e também não me apresentei. Ela disse que era professora e certamente leu essas teorias em algum lugar, mas usava palavras com a propriedade de um autor diante de seu livro inédito. Filha de Boca da Mata, interior de Alagoas, foi educada para a vida em Maceió, mas, aprendeu no sítio, cedo, a lidar com a morte dos animais e das pessoas. Resumo da ópera: jamais subestime uma senhora de 50 anos, nem quando ela quiser parecer ter só 42.

2 comentários:

Rafael Belo disse...

é Is, A morte é um tanto burocrática e midiática. Mas sempre dramática. Meu falecido pai, morreu em meus braços. Olhou dentro dos meus olhos e procurou os da minha mãe e escorreu para o chão direto dos meus braços...Isto em 28 de março. hà apenas, quase, dois meses.

Isolda Herculano disse...

Oi, Rafa. Não sabia da partida do seu pai, que coisa! São peças que a vida nos prega. Sei que esse último olhar vai ser guardado com valor por você até os seus últimos dias. Força em casa! Beijos na sua mamãe.