12 novembro 2014

A feiura encantadora

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Olho a folha seca despencando da árvore. Parece uma cena qualquer de um outono qualquer, mas, para ser apenas um momento perdido na estação, eu precisaria acreditar que a natureza age por acaso, e não acredito. Muito me encanta entender suas metáforas. Ou talvez seja pretensão dizer “entendo”. Corrijo ligeiro: o que me encanta é interpretar suas metáforas.

Esses dias, a diarista aqui de casa – pessoa que leva meu raciocínio a lugares jamais explorados com facilidade semanal – falava do caso de um homem conhecido que deixou a mulher por outra. O absurdo, porém, não era a troca, e sim, o fato da oficiosa ter quilate inferior à oficial. Ela disse com todas as palavras: a mulher é feia, mal feita de corpo, inda tem dois filhos pequenos pro besta criar. Bem, melhor deixar as crianças de lado. Eu perguntei sobre a esposa traída. Ela é bonita, de rosto e de resto!

Então me senti à vontade para argumentar. É até uma questão matemática, o que talvez explique a dificuldade de compreensão que rasga gerações: como é pequena a probabilidade de um homem trocar sua esposa linda por uma mais linda ainda. Imagine o marido de Gisele Bündchen precisar superar o padrão de beleza internacional da atual amada para, no futuro, ter uma nova parceira. Que dificuldade! Mais fácil seria manter o casamento, por mais arruinado que ele estivesse – e são muitos os que seguem essa fórmula.

Daí entra a natureza, com sua esperteza acima da média, seu sarcasmo transcendental. Para quem já experimentou manga-espada saberá do que estou falando: nunca mais vai olhar a manga-rosa com os mesmos olhos. Mulheres não são mangas nem estou colocando-as em situação de puro consumo, nada disso. A metáfora pode ser usada para ambos os sexos sem dificuldade. Observo apenas que quando a beleza não vem com um segundo argumento forte, a feiura-encantadora parece uma aventura mais vital. Toda vez que falo essas coisas a diarista sorri canto de boca e me olha com cara de: essa aí deve ser louca. 

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