02 outubro 2015

De repente

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De repente há um estranho na nossa casa. E daí que ela tenha deixado de ser nossa para ser só sua, como combinado? Faz tão pouco tempo esse laço se desfez, ainda me sinto no direito de levar os pronomes possessivos para o plural. Não me critique ainda, não por isso.

Esse estranho já tem a cópia das chaves (será que usa o chaveiro antigo com nossas iniciais?), acarinha nosso cachorro e vai aguar as plantas quando o sol baixar. Inclusive, a jabuticabeira que plantamos juntos. Balança nossa rede, deita na nossa cama sem cerimônia. Quando essa outra pessoa descalça passou a pisar na grama do jardim? A deixar o cheiro nas paredes? E escrever sua nova história sobre nosso livro já escrito e sem final feliz.

Tudo bem, era de se esperar que um dia fosse assim. Contudo, sinto que é meu direito estranhar. Alguém cruza o caminho do quarto até a cozinha de roupão depois do banho e não sou mais eu. Dá palpite na mobília da sala. Lembre de não me pedir para achar tudo natural! Deixa recado no bloco de notas. Cola mensagens com os imãs da geladeira: médico tal dia, telefone do marceneiro, do mercadinho, da água e gás. E pareço ver tudo bem de perto, como um fantasma que se esconde atrás da cortina com medo de assombrar. 

Na  verdade, sinto que não existo mais para aquele espaço e que essa coisa de nossa vida, nossa casa, nosso pé de jabuticaba é apenas um pretexto para não recomeçar. Visto que recomeços exigem uma regra simples: é preciso ter dado o ponto final. Não vale vírgula nem ponto e vírgula. E não há todo o tempo do mundo, tem que ser de repente. 

Um comentário:

Rafael Belo disse...

quando menos se espera deixamos de perceber e fingimos ser de repente. muito bom Is. saudades.