16 novembro 2015

Estou analfabeta


Há duas semanas conheci uma senhora simples, marcas da vida no rosto, despachada, corajosa. Fala bem, mostra sensatez diante de situações diversas, cria dois filhos adolescentes sozinha. E é analfabeta. Saber disso me afetou profundamente. Olha que eu moro no estado que registra a maior taxa de analfabetismo do Brasil. Apesar de já ser alarmante, uma coisa é a estatística (Alagoas tem quase 22% de analfabetos), outra coisa é o analfabeto cara a cara, contando histórias, fazendo rir, sendo feliz e infeliz como todo mundo, como eu mesma sou.

Eu me sinto analfabeta diante de uma pessoa que é analfabeta de verdade. Não sei exatamente como agir, o que perguntar, onde colocar as mãos, como ser franca sem oprimir. Afinal, nenhuma pessoa que não sabe ler nem escrever precisa de uma opressão maior do que a que essa condição já lhe dá. Imagine minha inquietação ao ser presenteada por essa senhora com um livro. Isso mesmo. Um livro. Meu simples "obrigada" não preencheu o vazio que ficou entre a palavra e o acontecimento.

No mesmo dia, ao ler uma crônica, vi uma autora famosa usar a palavra analfabeto como sinônimo de grosso, mal educado. Fiquei possessa. Com vontade de parar a leitura por ali. Analfabeto não é ainda o mesmo que burro. Se eu já liguei um ao outro? Sim. Faz muito tempo, coisa de criança, e hoje não consigo ver coerência alguma nisso. Considero uma lástima que autores muito lidos não achem o mesmo e mal influenciem seus letrados leitores.

A senhora me disse que nunca sentiu falta de saber ler na vida como sente agora. É evangélica, anda com a bíblia debaixo do braço, contudo, não pode decifrar as letrinhas. Em casa a filha lê para ela. Eu preciso ajudar de alguma maneira, mas ela esquiva, diz que ano que vem vai se matricular numa turma de alfabetização para adultos. Sinto que está mentindo. A mentira dela não me incomoda, todos mentem - da pré-escola ao PhD. O que me dói é entender que o fato de, aos 50 anos, não saber ler e escrever gerou nela o pior dos temores: o medo de aprender.

4 comentários:

jeremias pereira disse...

Adoro seus textos Isolda, eles sempre me fazer refletir,fico a espera do próximo e eles sempre veem melhor.
Obrigado por compartilhar seu olhar e sentimentos em palavras.

Isolda Herculano disse...

Jeremias, obrigada pelas bonitas palavras e por me dar a chance de colaborar com suas reflexões. E mil desculpas por lhe fazer esperar tanto. Conforme o tempo passa, minhas publicações vão ficando mais espaçadas. Amo escrever e daria muito que tenho na vida para escrever todas as vezes em que tenho vontade. Digamos que deixar mais impressões aqui seja minha meta para 2016. Abraços.

Rafael Belo disse...

Vou cobrar esta meta kkk Mas antes é sempre bom lê-la Is. A ignorância é outra né? Muito bom o texto e espero que o medo de aprender desta alagoana guerreira seja superado.bjs

Isolda Herculano disse...

Menino do céu, Rafael, eu lhe devo mil visitas e está no meu pacote para 2016 escrever mais e visitar mais quem escreve com as vísceras como eu. Beijos!