12 fevereiro 2016

"Eu acho que quando não escrevo estou morta"

A frase não é minha, está entre aspas, é de Clarice Lispector. De sua última entrevista. Clarice foi brilhante, não posso me comparar ao que ela era quando escrevia; só que ela era também humana, então, posso parear nossos sentimentos humanos diante do que não podemos controlar. Não tenho controle sobre minha falta de tempo, de inspiração, de ânimo até. Minha vida hoje é sem tragédias, mas não me excita.

Amo escrever e ler e tenho me dedicado mediocremente a esses prazeres, como a todos os outros. Porém, esses dois, de verdade, são os que mais me fazem falta agora. Ainda leio e escrevo - de forma meio burocrática - na busca frenética por informação, o que não é a mesma coisa. Não acho justo dar continuidade ao blog e também não acho justo lhe matar, já que continuo (morta-)viva. Ele continuará aqui, eu não.

A essa altura do campeonato não devo ter mais leitores, esses que me impulsionaram com suas presenças, comentários, por tanto tempo. A quem desrespeitei com meu mutismo, minha não periodicidade, meu silêncio. Peço que me perdoem, por mais que não escutem meu pedido de perdão. 

Bem, acredito que essa despedida já atingiu o ápice dramático. Gostaria de agradecer. E esquecer.

07 dezembro 2015

Clube dos sofredores felizes

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Será que todas as pessoas sofrem? Eu espero, com sinceridade, que sim, pois o sofrimento deve ser das condições que mais iguala todos humanamente. Então, prefiro imaginar que todo mundo sofre e, por mais que tente a qualquer custo encarar todas as situações sem julgamento, sempre vou ter um olhar desconfiado sobre aquelas pessoas que aparentam jamais sofrer. Não sofrer, aliás, parece coisa para rochas, não para gente. 

Uma vez, faz alguns anos, conversando com um cego, ele me disse: "as pessoas acham que eu sofro por ser cego. De jeito nenhum! Eu sofro é por ser gente. Não tem tanta gente que não é cega e sofre também?" Tenho a impressão de que nunca vou esquecer o que me falou Edmilson, é esse seu nome. Ele não sabia que é dado ao homem simples o direito de profetizar, mas estava profetizando com a própria vivência. E via com olhos cegos o que muita gente que enxerga não consegue ver. O que talvez eu mesma tenha demorado a perceber.

Gosto de imaginar que todo sofrimento tem o mesmo tamanho, por mera dificuldade de estipular uma medida para ele. O que se pode medir é, somente, a circunstância: a morte de alguém querido, a reprovação no vestibular, a saudade da infância. Porém, ninguém, nem o sofredor, conhece a vastidão do próprio sentimento, pode determinar o tempo que ele vai ficar ou definir suas consequências. Não há domínio sobre o sentir - isso é tão devastador quanto mágico.

Aos 31 anos, pode ser que eu já encare o próprio sofrimento como um momento indesviável, uma estação que preciso passar antes do trem seguir. Coisa bem diferente é ter essa percepção racional quando o sofrimento é de quem se ama: um filho, um namorado, um amigo próximo, um familiar. Aí não! E se me perguntam o porquê de sofrer, tantas vezes, ser mais fácil do que ver sofrendo, respondo: eu não sei. A não ser que venha outro cego (pode ser o mesmo!) me ensinar a ver.

16 novembro 2015

Estou analfabeta


Há duas semanas conheci uma senhora simples, marcas da vida no rosto, despachada, corajosa. Fala bem, mostra sensatez diante de situações diversas, cria dois filhos adolescentes sozinha. E é analfabeta. Saber disso me afetou profundamente. Olha que eu moro no estado que registra a maior taxa de analfabetismo do Brasil. Apesar de já ser alarmante, uma coisa é a estatística (Alagoas tem quase 22% de analfabetos), outra coisa é o analfabeto cara a cara, contando histórias, fazendo rir, sendo feliz e infeliz como todo mundo, como eu mesma sou.

Eu me sinto analfabeta diante de uma pessoa que é analfabeta de verdade. Não sei exatamente como agir, o que perguntar, onde colocar as mãos, como ser franca sem oprimir. Afinal, nenhuma pessoa que não sabe ler nem escrever precisa de uma opressão maior do que a que essa condição já lhe dá. Imagine minha inquietação ao ser presenteada por essa senhora com um livro. Isso mesmo. Um livro. Meu simples "obrigada" não preencheu o vazio que ficou entre a palavra e o acontecimento.

No mesmo dia, ao ler uma crônica, vi uma autora famosa usar a palavra analfabeto como sinônimo de grosso, mal educado. Fiquei possessa. Com vontade de parar a leitura por ali. Analfabeto não é ainda o mesmo que burro. Se eu já liguei um ao outro? Sim. Faz muito tempo, coisa de criança, e hoje não consigo ver coerência alguma nisso. Considero uma lástima que autores muito lidos não achem o mesmo e mal influenciem seus letrados leitores.

A senhora me disse que nunca sentiu falta de saber ler na vida como sente agora. É evangélica, anda com a bíblia debaixo do braço, contudo, não pode decifrar as letrinhas. Em casa a filha lê para ela. Eu preciso ajudar de alguma maneira, mas ela esquiva, diz que ano que vem vai se matricular numa turma de alfabetização para adultos. Sinto que está mentindo. A mentira dela não me incomoda, todos mentem - da pré-escola ao PhD. O que me dói é entender que o fato de, aos 50 anos, não saber ler e escrever gerou nela o pior dos temores: o medo de aprender.

02 outubro 2015

De repente

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De repente há um estranho na nossa casa. E daí que ela tenha deixado de ser nossa para ser só sua, como combinado? Faz tão pouco tempo esse laço se desfez, ainda me sinto no direito de levar os pronomes possessivos para o plural. Não me critique ainda, não por isso.

Esse estranho já tem a cópia das chaves (será que usa o chaveiro antigo com nossas iniciais?), acarinha nosso cachorro e vai aguar as plantas quando o sol baixar. Inclusive, a jabuticabeira que plantamos juntos. Balança nossa rede, deita na nossa cama sem cerimônia. Quando essa outra pessoa descalça passou a pisar na grama do jardim? A deixar o cheiro nas paredes? E escrever sua nova história sobre nosso livro já escrito e sem final feliz.

Tudo bem, era de se esperar que um dia fosse assim. Contudo, sinto que é meu direito estranhar. Alguém cruza o caminho do quarto até a cozinha de roupão depois do banho e não sou mais eu. Dá palpite na mobília da sala. Lembre de não me pedir para achar tudo natural! Deixa recado no bloco de notas. Cola mensagens com os imãs da geladeira: médico tal dia, telefone do marceneiro, do mercadinho, da água e gás. E pareço ver tudo bem de perto, como um fantasma que se esconde atrás da cortina com medo de assombrar. 

Na  verdade, sinto que não existo mais para aquele espaço e que essa coisa de nossa vida, nossa casa, nosso pé de jabuticaba é apenas um pretexto para não recomeçar. Visto que recomeços exigem uma regra simples: é preciso ter dado o ponto final. Não vale vírgula nem ponto e vírgula. E não há todo o tempo do mundo, tem que ser de repente. 

12 novembro 2014

A feiura encantadora

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Olho a folha seca despencando da árvore. Parece uma cena qualquer de um outono qualquer, mas, para ser apenas um momento perdido na estação, eu precisaria acreditar que a natureza age por acaso, e não acredito. Muito me encanta entender suas metáforas. Ou talvez seja pretensão dizer “entendo”. Corrijo ligeiro: o que me encanta é interpretar suas metáforas.

Esses dias, a diarista aqui de casa – pessoa que leva meu raciocínio a lugares jamais explorados com facilidade semanal – falava do caso de um homem conhecido que deixou a mulher por outra. O absurdo, porém, não era a troca, e sim, o fato da oficiosa ter quilate inferior à oficial. Ela disse com todas as palavras: a mulher é feia, mal feita de corpo, inda tem dois filhos pequenos pro besta criar. Bem, melhor deixar as crianças de lado. Eu perguntei sobre a esposa traída. Ela é bonita, de rosto e de resto!

Então me senti à vontade para argumentar. É até uma questão matemática, o que talvez explique a dificuldade de compreensão que rasga gerações: como é pequena a probabilidade de um homem trocar sua esposa linda por uma mais linda ainda. Imagine o marido de Gisele Bündchen precisar superar o padrão de beleza internacional da atual amada para, no futuro, ter uma nova parceira. Que dificuldade! Mais fácil seria manter o casamento, por mais arruinado que ele estivesse – e são muitos os que seguem essa fórmula.

Daí entra a natureza, com sua esperteza acima da média, seu sarcasmo transcendental. Para quem já experimentou manga-espada saberá do que estou falando: nunca mais vai olhar a manga-rosa com os mesmos olhos. Mulheres não são mangas nem estou colocando-as em situação de puro consumo, nada disso. A metáfora pode ser usada para ambos os sexos sem dificuldade. Observo apenas que quando a beleza não vem com um segundo argumento forte, a feiura-encantadora parece uma aventura mais vital. Toda vez que falo essas coisas a diarista sorri canto de boca e me olha com cara de: essa aí deve ser louca. 

14 junho 2014

Diga "eu te amo" - grite, se precisar

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Não sei como era na casa de vocês, durante a infância. Na minha não existia a declaração “eu te amo” entre os familiares. Todos se amavam, sim, mas de forma implícita. Não se dizia. Ninguém declarava isso com palavras, com essas três palavrinhas simples. Às vezes se escrevia e – ufa! – vinha aquela sensação de “missão cumprida”. Isso há 30 anos. 

Fui crescendo sem aprender o que é repeti-las, achando que não tinha tanta importância assim. Eu estava errada. Dizer que se ama faz toda a diferença. E em certos momentos é crucial. Não sei por quantos anos da vida combati esse sentimento, ou porque o combati, contudo, sinto que agora já não preciso. 

Quero que meu filho cresça ouvindo dos seus pais que eles se amam, pois ele é uma criança ainda muito pequena para precisar ler nas entrelinhas. E, então, reproduza isso para os irmãos que virão. É claro que depois aprenderá que a palavra não é a única expressão do amor, é um elemento – como um olhar afetuoso, um abraço, uma presença... 

Talvez, ele não precise, como sua mãe, penar para incorporar uma expressão tão bonita à vida prática. Nem ficar, tantas vezes, sem jeito frente a uma declaração de amor – que não é tudo, mas, diante dos desmandos do mundo, já é muito.

09 junho 2014

Sim, teremos Copa!

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Em 2012 fui a Buenos Aires com minha mãe e no coletivo rumo a La Boca, bairro em que fica o famoso Caminito, encontrei um jovem jornalista bem simpático e articulado. Melhor dizer periodista, como se apresentou. Chamava-se Frederico, o que não comporta, lá, o apelido “Fred”. Falei que aqui no Brasil era comum Fredericos serem resumidos a Fred e no fim das contas ele gostou. Fui lhe tratando assim até o final da viagem que fizemos de pé, no corredor do ônibus, hábito brasileiro também – estava me sentindo em casa. 

Fred seguia rumo ao estádio do Boca Juniors, no labor diário do mundo esportivo. Enquanto conversávamos sobre mil coisas, ele me disse que estava se preparando para vir ao Brasil no Mundial (em nenhum momento falou a palavra “Copa”), inclusive, frequentando aulas de português. A viagem ficou mais divertida à medida que fomos aprofundando, rasamente, o idioma do outro. Espanhol e português do Brasil não são tão próximos quanto aparentam, especialmente quando a conversa vai adquirindo ritmo frenético. 

Já faz dois anos, e a batalha Neymar versus Messi estava no auge para nós – pois, para eles era uma competição superada. Exatamente no dia 9 de junho, como hoje, a Argentina venceu o Brasil por 4 a 3 (Messi meteu três golzinhos) e eu estava lá, no território não “mui” amigo. Fiquei mais uns dias e até ir embora continuava a ver a partida repetida em bares e restaurantes, a exaustão. Meu pai ligou e quis saber se os argentinos realmente davam tanta importância à rixa entre os dois países ou se era uma coisa mais nossa do que deles. Não era não. Aliás, achei os argentinos mais fanáticos. Era apenas um amistoso, parecia mata-mata.

Meu sentimento em relação à Copa, naquele dia, era outro. Jamais acompanhei futebol, fora a época em que morei em Campina Grande, na Paraíba, e virei torcedora fiel do Treze, de ir ao estádio uniformizada coisa e tal. Mas, Copa do Mundo sempre foi diferente, havia uma expectativa acima do limite na espera, havia mais coração. A de 1994 tem gostinho especial, acho que porque eu era criança, estava numa cidade do interior em que nem o meio-fio passava em branco (era tudo verde e amarelo) e vencemos! Hoje, que olho a Copa com olhos de adulto, não vejo tanta graça. Fora o entorno social, que é deprimente, a coisa está mais burocratizada do que nunca. Bem, ainda estou na torcida pela seleção, e esperando um sopro daquela mesma emoção.

17 maio 2014

Não subestime uma mulher

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Sexta-feira. Estava eu esperando a triagem no banco de sangue quando vi essa senhora que mais tarde me disse ter 42 anos. Suspeito que fosse mais. As linhas de expressão diriam 50, pelo menos. Entregou o jogo sua insistência em repetir tantas vezes a idade. Foi uma dessas conversas que não dá para saber exatamente como começou e se estendeu sem controle. Falamos sobre tudo e sobre morte. Falar sobre morte é como uma licença poética, podemos sentir e criar à vontade. 

Na verdade, ela falou mais do que eu, que tenho menos experiências mortais – nunca vi a morte assim de perto. Enquanto íamos e vínhamos no assunto, a senhora me chamou atenção para a maneira como encaramos a finitude. Completamente diferente depois da solidificação do capitalismo. Recebi a referência com surpresa, diante da figura que não parecia ser a última socialista do século. Delatavam-na os colares de ouro e pérola, as pulseiras, os anéis, o escapulário e mil penduricalhos, cabelo e unhas de salão de beleza. 

O capitalismo criou a “instituição morte” nas palavras dela. E tenho que admitir que ela dizia coisas bonitas e conexas, embora duras. De modo que quem morre – continuou –não é mais uma pessoa nossa, querida; também nos acostumamos a tratar o outro como paciente. É claro que quase todos diremos agora: que horror, ai, que mulher exagerada! Ela seguiu. Os hospitais privados – alguns com patente de hotel de luxo – cumprem o papel de parecer o melhor lugar para morrer. Depositamos nossos entes amados para serem não apenas tratados, queremos que fiquem lá mantidos em máquinas e remédios até não poderem mais. Para que morrer em casa? É incômodo. Para que velar em casa? É cafona. A morte burocrática resolvemos no escritório – encerrou. 

Diante do que escrevo questiono a mim mesma se aquela mulher existe ou se foi alucinação. Esqueci de perguntar seu nome e também não me apresentei. Ela disse que era professora e certamente leu essas teorias em algum lugar, mas usava palavras com a propriedade de um autor diante de seu livro inédito. Filha de Boca da Mata, interior de Alagoas, foi educada para a vida em Maceió, mas, aprendeu no sítio, cedo, a lidar com a morte dos animais e das pessoas. Resumo da ópera: jamais subestime uma senhora de 50 anos, nem quando ela quiser parecer ter só 42.

05 maio 2014

Quero ser velha

Google Imagens - você vê uma jovem ou uma velha?

Parece que querem criar uma ilusão em torno de envelhecer, não há nada de melhor idade. A frase anterior não é criação da minha cabeça, é a experiência de uma senhora lúcida em seus mais de 80 anos. Na correria do dia a dia, gente jovem, geralmente, não sai pensando coisa assim, prefere tratar o velho burocraticamente - quer expressão mais burocrática do que "idoso"?

Quando eu era pequena - tenho 30, não venham me dizer que faz tanto tempo assim - todo mundo falava em demasia a palavra velho para as pessoas de mais idade, sem medo de parecer grosso, inconveniente. Morreu a velhinha da rua de baixo. Ajude o velhinho a atravessar a rua. Quero ser um velhinho igual ao senhor. E por aí em diante.

Idoso é um bom termo sim, mas formal, tecnicamente desprovido de carinho. Não cabe nem diminutivo, vejam só. Quem quer mostrar mais afetividade com a pessoa velha, pode chamá-la de velhinha. Os diminutivos - quando a intenção não é diminuir moralmente - têm mesmo essa carga de sentimento bom: mãezinha, vovozinha, filhinho, amiguinho. Essas expressões estão todas cravadas aí e não me deixam mentir. Idosinho, por outro lado, soa mal, não existe na prática. Eu, pelo menos, nunca ouvi.

Então, por que essa coisa de não chamar mais o velho de velho? Deve ser porque quase ninguém mais lida bem com a ideia de envelhecer, ainda que todos saibam que a juventude é passageira (e a passagem é rápida). Antigamente até as coisas velhas eram vistas de outra maneira; consertadas se enguiçavam, assumiam outra função. Hoje, chamar de velho é chamar de inútil. Infelizmente.

Eu sei que é fácil falar de velhice quando se é jovem, se é esse o seu argumento. Mas, por favor, ao cruzar comigo na rua daqui a alguns anos, sem lembrar o meu nome, não perca a chance de me apontar como aquela velhinha de cabelo branco, azul, roxo... Essa coisa de idoso fica só entre mim e as campanhas do Governo Federal.

29 abril 2014

A vida de quem não nos interessa

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Foi essa semana, sentei no ônibus ao lado de uma jovem nos seus 19, 20 anos, não mais. Quando entrei no coletivo, ela já estava lá, falando pelos cotovelos, ao telefone. Paguei a passagem e apesar do falatório, fiquei por ali, na última cadeira à sombra, uma oferta ruim de rejeitar. O tipo da situação em que não se pode optar por não ouvir a conversa alheia, ao menos que se tenha um fone de ouvido e eu não tinha.

A viagem durou entre 10 e 15 minutos, e sei fatos da vida daquela moça que são dignos de uma melhor amiga. Não apenas eu. A senhora da frente, as de trás, os rapazes do lado, o motorista e a cobradora, pelo menos. Todos nós sabemos que ela tem uma filha na faixa de um ano, é mulher de um presidiário, o pai da garotinha. A visita na penitenciária é todos os domingos para a família, quando se pode lavar uma refeição, refrigerante, coisa pouca. Às vezes vai com a garotinha, às vezes não. A feira completa é entregue à parte, a cada quinze dias. 

Ela se diz feliz, tem um homem que é só seu e nunca precisou tomar o marido das outras, como fez a mãe, destruindo uma família. Contava isso tudo à tia que, do outro lado da linha, ouvia com paciência, mas quase não opinava por pura falta de espaço. Confessou também que anda sem dinheiro, deve muito e não tem como pagar. Depois que o companheiro foi preso, teve que sair do “babado” e agora trabalha um turno todo dia.

Eu não sei ao que ela referia, exatamente, quando usou a expressão “babado”, embora tenha imaginação suficiente para arriscar. Olhei de rabo de olho, era uma pessoa de palavras ferozes, sangue nos olhos, porém, de traços suaves, magrinha, cabelo escorrendo no rosto, a boa aparência que os processos de seleção de emprego pedem, levava uma pastinha vermelha. Não daria para imaginar, não fosse a conversa ao celular, que aquela quase-menina carregava um passado de uma tonelada nas costas. Ou desvendar o peso do seu presente, futuro. E sabe qual é a ocupação dela todos os dias por um turno? Babá. Eu não disse babado, eu disse babá.