Sobre mudança

Por: Isolda Herculano .*. Tema:

Sábado, 7 de novembro de 2009

Estive de mudança: encaixota daqui, desce geladeira, sobe fogão, cuidado com a tevê. Um transtorno! Deve ser do ser humano essa coisa chata de não querer mudar e ficar na mesma, acostumando-se ao acostumado. Já fui assim. Ainda sou um pouco, embora não por tanto tempo. Logo arranjo algo novo para fazer que me atrai muitíssimo, boto outra música para tocar, desenvolvo dons que jamais tive. E a vida vai seguindo, sorrateira, até o próximo impacto.

Na mudança – de casa – descobri um monte de coisa que de nada serve entulhada como algo essencial. Lixos que contam histórias feias, pertences de alguém que não lembro quem, inutilidades de toda espécie. Tudo sobre a minha despreocupada e desatenciosa guarda. A verdade é que nunca guardei aquelas coisas todas, contudo, como também nunca me livrei delas é como se tivesse guardado ou, pior, carregado comigo, feito um peso morto. Cansativo, enjoado, não?

Mudar é importante, principalmente quando estamos numa situação incômoda, o que parece óbvio, mas não é, já que toda mudança de alguma maneira mortifica. Prefiro acreditar que isso acontece porque é preciso nascer outra pessoa – como uma nova encarnação sem abandonar o corpo original. Uma crença, enfim, não é uma verdade; qualquer um acredite naquilo que crê. Eu creio em coisas assim, complexas. Coisas simples são para serem vividas.

Queria mudar o cabelo, uma opção que implicitamente pode dizer que quero quebrar os espelhos. Queria mudar o cardápio e quem sabe esteja só planejando experimentar sabores novos. Queria um filho e talvez seja um forte desejo de produzir algo bom. Apenas. Sim, a vida é boa, não me cansa repetir. Quer dizer, às vezes, cansa.

Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança.
(Nicolau Maquiavel)


Imagem: Google Imagens.

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Não existo. Resisto.

Por: Isolda Herculano .*. Tema: ,

Segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alguém tenta me convencer de que a vida vai melhorar. Meu desejo imediato é rir abundantemente, pois deve ser a milionésima vez que ouço o discurso em duas semanas, sem exageros. Relevo por não querer discutir, não ali e muito menos com uma pessoa querida. Então, acendo um cigarro – já que leis antifumo exercem poder nenhum no campo literário – e por poucos instantes finjo acreditar naquilo. Mesmo tendo limitadíssimo senso fingidor e poeta. Antes de fechar a porta agradeço a visita.

Na passagem para a cozinha penso em todas as receitas caseiras passadas ao longo de tudo: pelas colegas da faculdade e do emprego, pelas primas e até por uma desconhecida no ônibus que jurou decifrar meu carma, assim, só de olhar – e deixou o telefone para que eu encomendasse um mapa astral. A unanimidade é que devo arranjar um amor, como se amados fossem coisas de se escolher em mostruários, experimentar e levar para casa numa sacolinha simpática, dessas que não rasgam no caminho. Também aconselharam viagens, sexo, um guarda-roupa novo, sexo, um animal de estimação, sexo, religiões, sexo, produção independente e uma pausa no sexo. Mais ou menos nessa ordem.

Bebo água no gargalo da garrafa (hábito dos solitários?) e vou rumando para o quarto, sem sono. Infelicidade e insônia parecem amigas inseparáveis e, talvez, insuperáveis. Porém, não desisto – quem sabe esqueci de mencionar que com aquela água se foram dois comprimidos, fortíssimos – e logo estarei sonolenta. Se ainda há tempo de pensar algo? Claro. Geralmente fatos desconexos que, no fundo no fundo, são meus desejos ocultos; pontos obscuros fora do acesso do resto do mundo.

Sim, disseram para eu ter a paciência de um monge do Nepal, que vivo agora um período de transição, embora nada detalhado. Deve ser para que fique com essa sensação de estar saindo não sei de onde rumo a algum lugar que desconheço. E posso dizer que isso mais atrapalha do que ajuda. Mas pouco adiantará, as pessoas continuarão a me dar conselhos.

E hoje, repetindo Bataille: "Sinto-me livre para fracassar".
(Hilda Hilst)


Imagem: Maria Clarinda Galante.

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A menina que queria se casar

Por: Isolda Herculano .*. Tema:

Sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Eu era criança, mas já ao ponto de ir perdendo as inocências, quando comecei a pensar em casamento. O engraçado é que nenhum dos meninos ao redor parecia apaixonante; isso me leva a crer que eram as novelas da Globo pondo aquilo na minha cabeça e na cabeça de amigas minhas. Algumas pessoas preferem colocar a culpa nas brincadeiras de boneca, casinha, comidinha etc. Não faziam meu gênero, enfim. Matrimônio sim, queria muito casar.

Sobrenomes atraiam, ali, na bolha que eu chamava planos para o futuro. Não poderiam ser aqueles animalescos: Coelho, Carneiro, Leão, Bezerra – Pinto, então, nem pensar. Também não apeteciam partículas apassivadoras: Costa, Leite, Silva. Nenhum desses. Eu queria algo forte como Antunes, Macedo, Sampaio, talvez. Porém, o que mais combinava com meus outros nomes era, sem dúvida, Figueiredo. Cheguei a testar a assinatura com o Figueiredo por último; meus olhos brilhavam, caprichava na caligrafia. Depois amassava o papel, colocava no bolso e jogava no lixo fora de casa. E claro, rasgava antes.

O tempo me levou do primário para o ginásio, do ginásio para o ensino médio, do ensino médio para a faculdade e da faculdade para a vida. Em meio a tantas estações, nenhum Figueiredo cruzou meu caminho, não que eu saiba. E olha que, impulsivamente, prestava atenção nas chamadas em sala de aula, atentei para a lista do vestibular: vestígio algum. O crescimento trouxe Xavier, Santos, Neves, Braga e, por consequência, mandou-os embora. E resolvi deixar para trás, de uma vez por todas, o tal do Figueiredo. Ainda carreguei uns dias aquela cara de viúva que jamais se casou. Depois passou.

Hoje já não penso em Figueiredos. Nem em casamentos. E qualquer cerimônia do gênero: batizados, eucaristias, crismas, formaturas... Costumo chegar atrasada nesses eventos para ficar sempre menos do que as outras pessoas e culpo o trânsito, o vestido, o salto do sapato e até o meu atual companheiro, que, aliás, é dos melhores Pereiras que conheço.

Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
(Martha Medeiros)

Imagem: Pedro Libório.

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Corpo sem alma

Por: Isolda Herculano .*. Tema:

Segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Eu queria escrever que a vida está boa. Não está.


Ontem – enquanto esperava o sinal fechar para atravessar, politicamente correta, pela faixa de pedestres – ouvi uma pessoa dizer à outra, sem pudores, que ela era um corpo sem alma. Não pude ligar muito para o episódio, afinal, tratava-se de um momento íntimo, embora público, entre aqueles dois desconhecidos. Deixei passar. Mas a expressão me acompanhou até o outro lado da rua, pegou o ônibus comigo e veio parar aqui, na sala de casa.

Vejam bem. Em alguma altura da vida, qualquer um já deve ter achado Fulano um desalmado; que Sicrano e Beltrano venderam a alma ao demo. E tudo isso é compreensível. Porém agora, e só agora, é que me deparo com a situação de ter de acreditar que existem por aí pessoas que desfilam o corpo oco, sem nada dentro. Nada eu disse: nada. Nem remorso pelas coisas más, nem atração pelas boas, nenhum interesse, nenhum escrúpulo, nenhuma fé, nenhuma crueldade.

E gente sem alma deve ser um perigo, pois, olhando fisicamente não há como diferenciar na multidão. Tem que conhecer primeiro, fazer amizade, pôr dentro de nossas vidas. Deixar que sorria, beije, segure nossa mão, telefone, dance e assobie a música que gostamos de ouvir. E nos apaixonamos por pessoas assim; essa coisa de alma vira detalhe bobo, de se esquecer.

É claro que cobraremos depois; alma faz uma falta danada quando passa a fase do encantamento. Por isso há de se tentar, exaustivamente, mudar o outro. Vou logo advertindo: o máximo a conseguir é criar nele um espírito de porco.

Imagem: Miguel Lopes.

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A tal

Por: Isolda Herculano .*. Tema:

Quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Estive pensando em escrever sobre felicidade, mas desisti. O tema, ao que parece, já não me atrai. Fala-se tanto nisso e com tanta propriedade – como se ninguém tomasse remédios antes de dormir nem pensasse em suicídio de vez em quando nem quisesse jogar tudo para o alto nem ofertasse a alma ao diabo a preços populares.

Além do que, as pessoas se zangariam quando eu lhes pedisse, sem insistência, para criarem menos expectativas sobre a vida. No fundo no fundo, o que elas mais desejam é continuar a perseguir os próprios rabos, como mártires, garantindo a eternidade do movimento de rotação da Terra. Qualquer tolo sem o primeiro grau completo sabe dessas coisas.

Dizer que a felicidade não existe, o que existem são momentos felizes, também é outro daqueles ditados chulos, pequenos, um tipo de raciocínio golpeado pelo tempo, embora tanta gente o tenha noticiado como a grande descoberta do século – e vendido livros com isso. Todos os poetas e cientistas já a traduziram: do manifesto à endorfina; e permanecem infelizes, contando histórias que eles próprios não acreditam.

É por essas e muitas outras que me abstenho diante do assunto, tão escuro e cheio de evidentes enganações, vielas estreitas. Afinal, a felicidade precisaria ser, ao menos, algo mais do que uma frase feita.

Imagem: Paulo de Sousa

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Passagem dos dias

Por: Isolda Herculano .*. Tema:

Quinta-feira, 1º de outubro de 2009


Impressionante como me sinto velha, embora algo em mim repita, constantemente, o quanto há de juventude nas coisas que ouço, leio e faço. O que acredito não existe mais, pelo menos não nessa esfera: realidade. E o modismo diz que todo mundo deve largar os sonhos no porão escuro da alma e correr atrás do real, decifrado e sem magia.

As pessoas perguntam se estou bem, se não quero esticar as pernas, se não ficaria melhor uma almofada entre as costas e o encosto da cadeira. Digo que sim, está tudo ao meu gosto; elas não acreditam e vêm, disfarçadamente, vigiar minha paz pela brecha da porta. Depois voltam para suas cozinhas, provam o arroz, desligam a panela de pressão, mexem a carne e esperam a chegada dos maridos, famintos. Se soubessem da vida não fariam assim. Mas são jovens e não sabem. Eu, que sou velha, preferiria não saber também e voltar à juventude tola de tantos anos a menos.

Vejam essas mãos! Jamais imaginaria mãos assim coladas ao meu pulso: flácidas, enrugadas, calejadas de um tempo sem retorno. Podem olhar, sem constrangimento. Já precisei segurar, firme, as rédeas da vida, como quem doma um cavalo bravo. Hoje levo algum arrependimento de tanta dureza, de tanto pé no chão, de nunca alcançar a leveza das nuvens nem saber o que é estar lá. Elas, as mãos, também embalaram o sono dos filhos, dos netos; agora chegou o bisneto – e devo contar um segredo: perdi a paciência com a infância.

Gostaria de andar um pouco mais, mas o meu primogênito diz que esse país não foi feito para velhos e reclama, demagogicamente, das políticas públicas para o idoso. A do meio sugere que eu caminhe no jardim mesmo, é espaçoso. O mais novo saiu, antes me beijou a testa e falou que discussões levam a nada. E eu a desconfiar que todos esperam o dia da minha morte para vender esse velho casarão e comprar uma apartamento na beira da praia.

Imagem: Maria São Miguel

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