21 julho 2017

Blog em (re)construção


Para quando não houver mais brinquedos espalhados no chão
(Isolda Herculano*)

Meus filhos crescerão. É uma constatação meio besta que fico repetindo algumas vezes para que possa parecer realidade – apesar de já ser. Eles estão crescendo na marcha frenética do dia a dia, um crescimento rápido e quase imperceptível. Não precisam da minha presença para dormir, o que é um alívio e outro tipo de solidão. Reagem às investidas de “olha o aviãozinho”, tomando a colher da minha mão com independência. Não há mais aviões circulando pelos céus encarnados de suas bocas. Derramam um pouco de comida no chão. Errando o alvo parecem dizer, escancaradamente, que estão aprendendo sozinhos. Fecham o primeiro ciclo da arcada dentária. Não tem volta. 

Todas as noites, quando eles vão recarregar a bateria da vida para a manhã seguinte e estou agachada recolhendo a bagunça diária, percebo: há menos brinquedos espalhados, menos paredes riscadas, menos saliva nos blocos de montar, menos super-heróis mutilados e menos massinha de modelar nas cerâmicas e azulejos. Há dias em que meus filhos me ajudam a juntar tudo aquilo antes de subir para o quarto e quando desço, depois de me certificar que os dois dormem profundo, já não encontro tanta coisa a fazer, sento para jantar ou durmo no sofá sem notar. Aos poucos reconquisto o direito de saborear pratos quentes – o que parece uma novidade para quem já estava habituada a comer comida fria. A cada descoberta olho fixamente para cada um, preciso ter a certeza de que são eles mesmos; de que meus filhos verdadeiros não foram sequestrados durante a madrugada e de que não puseram umas crianças bem parecidas em seus lugares, crianças maiores e com mais astúcia.

Às vezes, acordo em meio a calma perturbadora. A casa morre enquanto eles estão dormindo. O vento morre. As flores se encolhem no jardim. É surpreendente que o dia amanheça. Então, tudo recomeça. Meu esforço vão para que o primeiro a levantar não desperte o que permanece dormindo. As roupas reviradas, os brinquedos a pilha miando, mugindo, cacarejando, relinchando nos meus ouvidos. Preparo tudo veloz como uma bala para ouvir de recompensa: eu não quero suco de goiaba, o pão está duro, quero o leite frio, tem formiga no açúcar. Escorrego no minicarro de bombeiros enquanto corro para procurar uma meia que se perdeu – sempre falta uma meia! Praguejo com fúria, em pensamento, e o que sai da boca é no máximo: inferno, quem botou esse carrinho aqui?! Consigo chamar a atenção dos dois, sentados no sofá esperando. Lançam para cima de mim olhares de anjo questionador. Sinto que sou impura e tola perto deles. Passo a mão pelos cabelos assanhados, desvio o foco, encontro a meia perdida.

Esses pequenos já começam o dia me dando grandes lições. A maior de todas – considerando o amor autodidata – é de paciência, certamente. Estão no carro, com os cintos das cadeiras afivelados, e quando fecho a porta do lado do motorista alguém diz que quer fazer cocô. Preciso correr com esse para o vaso porque, crescendo a jato como crescem, é claro, não usam mais fraldas. E depois da coisa feita nada de limpar o bumbum, fui eu quem ensinou que bumbum não se limpa, bumbum se lava e os danados aprenderam direitinho. Até isso deve ser tempo aproveitado. Eles não aceitarão a vida inteira, como os amigos, acompanhar os pais nas férias de final de ano. Um ou outro gritará da janela ao me ver abrir o portão da garagem rumo ao supermercado: “mãe, não esqueça a lâmina de barbear”. Meus filhos serão homens de barba – como isso era impensável na sala de parto.

Os meninos parecem crescer sozinhos, porém, é verdade que também estou envelhecendo. Daqui a pouco esses graus nos óculos não me servem mais, precisarei de lentes novas. A pele do rosto, do pescoço e do corpo inteiro estará menos elástica e mais seca, fará desenhos em mim. Fios brancos darão o novo tom do meu cabelo. Meus filhos estão crescendo para a juventude, eu estou passando para a velhice e para a morte. Por isso é incrível que o crescimento deles pese mais do que o meu envelhecimento. Talvez porque olho cada vez menos para o espelho. Prefiro sentir a calmaria efervescente do reflexo da minha alma na alma deles.

*Texto vencedor do I Concurso de Crônicas Ivone dos Santos (2016) promovido pela Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas.

2 comentários:

Marise Bender disse...

Minha querida.
Que belo texto! Que bom ver você por aqui novamente! Saudade de ler você, menina.
Sobre os filhos, eles crescem mais rápido do que podemos nos dar conta. E mudam. E têm outras fases e outras prioridades. Tudo é igualmente gostoso e enlouquecedor como na infância, creia. Rs. E os espelhos deixam de ser prioridade desde que nascem até sempre. É tão lindo e desconcertante contemplá-los, não é?
Beijos, querida.

Rafael Belo disse...

Incrível IS! Parabéns! MErecedora de tudo neste mundo! Saudades de ti! você deveria escrever um romance e antes juntar teus textos em um livro. bjs saudadessssss